terça-feira, 14 de outubro de 2008

Hemorragia

Quando a maioria dos prefeitos logrou a reeleição, inclusive nas capitais, é cada vez maior o aperto da recandidatura de Duciomar Costa (PTB), em Belém. Seu balaio eleitoral emagreceu exatos 100676 votos, que é a diferença entre a votação obtida no primeiro turno de 2004 e o magro resultado do último dia 5.
Em sendo corretos os números do último Ibope, que sinaliza empate técnico entre Duciomar e Priante por uma diferença líquida de apenas um ponto percentual, é de se esperar, para os próximos dias, os primeiros sinais de desespero na já apreensiva tropa de apoiadores do atual prefeito.

Carrinho por trás

Na guerra eleitoral a ordem é não fazer prisioneiros. Em São Paulo, por exemplo, baixou o desespero na campanha petista de Marta Suplicy, dezessete pontos atrás do demo Gilberto Kassab. Para tentar alvejá-lo, desde domingo passado, Marta colocou no ar um comercial polêmico, onde instiga o eleitor a descobrir "Quem é Kassab?". Após perguntar sobre seu passado político, conclui, com mal disfarçada naturalidade, perguntando se ele é casado e tem filhos. A velada (?) insinuação de que o prefeito seria homossexual é muito mais que um golpe baixo. É um atentado à biografia de Marta, que há anos tem amargado forte preconceito por sua postura de corajosa defesa de temas espinhosos como a união civil de pessoas do mesmo sexo.
Pode até ser que o petardo surrupie alguns pontinhos do democrata - talvez, porque existe uma boa probabilidade da manobra produzir resultado contrário ao esperado -, mas o estrago já estará feito, numa demonstração de que o apego aos princípios, no petismo de hoje, é mesmo coisa de museu.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Recesso Nazareno

A partir de hoje o Página Crítica entrará em recesso. Na terça-feira, 14, retornam as postagens e a moderação de comentários. Feliz Círio a todos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Dialética da palavra que não se cala

"Contra o Vento e as Marés

Este poema (contra o vento e as marés) levará minha assinatura.
Deixo-lhe seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz (como um passarinho ferido) ternura,

Um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.

A mais linda bala desta pistola que sempre me acompanha,
a memória indelével (sempre latente e profunda) das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.

Isso eu dou (convicto e feliz) à revolução.
Nada que nos pode unir terá força maior.

Ernesto Che Guevara".

Este poema foi escrito pelo guerrilheiro argentino-cubano entre setembro e outubro de 1967, poucos dias antes de sua prisão e posterior fuzilamento por tropas do Exército boliviano, em Vallegrande, região esquecida daquele país sul-americano.
Os versos dedicados à Aleida, esposa de Che, foram escritos em seus famosos cadernos de campanha, que por tortuosos caminhos acabaram sobrevivendo à fúria de seus captores. Hoje, 41 anos depois, é seu testemunho de coragem e compromisso com os povos que permanece acalentando os mais generosos sonhos de justiça e liberdade, em todos os quadrantes do planeta.
La Higuera, a pequena e poeirenta aldeia que foi palco do martírio de Guevara, segue sendo um ponto de encontro para os que sabem que a luta sempre vale a pena. Quanto a seus carrascos, de todas as patentes e latitudes, pouco ou quase nada ficou registrado. Seus nomes lá ficaram soterrados em sua própria covardia e ignomínia.

Sinal de alerta

O governo do Equador, em ato soberano, mostrou a porta de saída do país para a construtora brasileira Norberto Odebrecht e exigiu que, em no máximo 30 dias, abandone suas quatro obras em andamento, estimadas em US$ 650 milhões.
A razão do conflito foi, segundo o presidente Rafael Correa, os prejuízos causados pela empreiteira na construção da hidrelétrica de San Francisco, responsável por 12% da geração de energia do país. Inaugurada ano passado, com financiamento do BNDES da ordem de US$ 243 milhões, a usina parou de funcionar em 6 de junho devido a problemas no túnel e nas turbinas.
A Odebrecht, a Camargo Corrêa e a Andrade Gutierrez, líderes do mercado nacional da construção pesada, pretendem construir, com o aval do governo Lula, a bilionária usina de Belo Monte, na Volta Grande do Xingu paraense. Isso já seria razão suficiente para diminuir a pressa com o andor, mas parece que tem servido de estímulo para os insaciáveis barrageiros e de seus neoconvertidos defensores, alguns deles sentados nas mais poderosas cadeiras do governo de Ana Julia (PT).

Colhedores de tempestade

Dúvida atroz que atormenta dez de cada dez cabeças coroadas do petismo paroara: qual das feras deve alimentar no segundo turno de Belém?
Seja qual for o resultado, na dobra da esquina de 2010, pode emergir, sem a menor cerimônia, o coveiro dos sonhos de continuidade da legenda no Palácio dos Despachos.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Afogado em números

Descontado o chororô típico dos que precisam encontrar justificativas - mesmo que pueris - para seus pífios desempenhos eleitorais, a comparação entre os números do TRE entre 2004 e 2008 em Belém traz algumas curiosidades. A abstenção neste ano - apresentada como a mãe de todas as derrotas - foi apenas 3,47 pontos percentuais superior à registrada quatro anos atrás, correspondendo a um contingente de 43557 eleitores.
Partindo do suposto que essa abstenção foi um fenômeno generalizado, portanto não restrito a uma determinada região da cidade, o mais provável é que essa parcela apresentasse, mais ou menos, a mesma matriz de intenção de voto do restante. Ou seja: sua incorporação tenderia a ser neutra em relação ao resultado final apurado.
Aumento significativo mesmo foi a quase duplicação dos votos nulos - de 2,64% para 4,58% - podendo denotar certa fadiga de parte do eleitorado com a política em geral e com as candidaturas apresentadas, em particular.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Ridículo

Matéria-prima para futuros estudos sobre até onde pode ir o mau jornalismo, a edição de hoje de O Liberal denunciando, com estardalhaço, a suposta fraude na eleição de Ananindeua, é muito mais que jus esperniandi. É um atentado contra a inteligência de seus leitores. Afinal, o que faltou ao candidato do grupo foi muito simples: voto e nada mais.

Não basta parecer

A polêmica atuação do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, tem um novo e espinhoso capítulo. A revista Carta Capital desta semana traz uma longa e bem fundamentada reportagem, assinada pelo jornalista Leandro Fortes, lançando luz sobre a até agora pouco conhecida vida empresarial do magistrado. Ele é sócio do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), que faturou cerca de R$ 2,4 milhões de reais em contratos, sem licitação, com órgãos ligados ao governo federal. Conflito ético evidente que pode ser a pontinha de um interessante fio da meada. Quem possui interesse (ou coragem) para meter a mão nesta cumbuca?

Aviso aos otimistas

No meio do caminho até 2010 tem uma crise. Tem uma crise - profunda, imprevisível e inevitável - no meio do caminho.

domingo, 5 de outubro de 2008

Dialética da palavra que não se rende

Sonho Impossível

Composição: J.Darion / M.Leigh /
Versão: Ruy Guerra e Chico Buarque


Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite provável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar este mundo, cravar este chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã este chão que eu deixei
Por meu leito e perdão
Por saber que valeu
Delirar e morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

sábado, 4 de outubro de 2008

Um mago caloteiro

Duda Mendonça já não é mais o mesmo. Há pouco mais de uma década, ele era o maior expoente de um marketing político desprovido de qualquer dimensão ética, mas que se mostrava bastante eficaz na criação de personagens de forte apelo eleitoral. Eclético, emprestava sua suposta genialidade a figuras como Maluf, Celso Pitta, Marta Suplicy e Ciro Gomes, entre outros, até se tornar, em 2002, o criador da “Lulinha paz e amor" e ser entronizado como o mago da publicidade oficial do petismo. Aí veio o escândalo do mensalão e Duda caiu em relativa desgraça, entrando num período de hibernação.
Agora ele retorna com força às campanhas, atuando como consultor em várias capitais, inclusive em Belém, onde está por trás das artimanhas midiáticas de Duciomar Costa.
Segundo matéria publicada na edição de hoje da Folha de São Paulo, ele não consegue ficar longe de polêmica quando o assunto resvala para a gerência de seus contratos tão milionários quanto suspeitos. As equipes sob sua supervisão em Recife, Salvador e Rio de Janeiro, principalmente, estariam sofrendo com os constantes atrasos nos pagamentos, muito embora os valores já tenham sido antecipados em sua totalidade ao marqueteiro. Firma-se, assim, sua fama de mau pagador.
Resta saber o destino dos três milhões de reais pagos por Duciomar, numa alquimia contábil interessante para uma campanha que se comprometeu junto ao TRE a gastar no máximo, nos dois turnos da eleição, inverossímeis R$ 8 milhões.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Sangue na Serra

Na manhã da última segunda-feira (29), em Parauapebas, sudeste do Pará, a Polícia Militar, sob o comando do coronel Monteiro, dissolveu com extrema violência um piquete de mais de 600 operários da Construção Civil, durante uma greve contra as empreiteiras que prestam serviços à Vale do Rio Doce. Resultado: pelo menos três trabalhadores continuam hospitalizados e um ficou gravemente ferido quando teve a mão amputada pela brutalidade da ação policial. O presidente do sindicato da categoria, Francisco Canindé, depois de espancado pelos PMs ao tentar mediar o conflito, acabou preso e permanece até hoje detido acusado de incitação e depredação de patrimônio.
Mais uma vez, o Estado funcionou como milícia privada a serviço dos interesses dos que detém o poder real. Simples assim, porque não fazem a menor questão das mesuras e salamaleques que tanto encantam os que estão aboletados nos mais altos cargos de governo.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Dinheiro Queimado

No ar, o horário eleitoral paralelo, que de gratuito não tem nada. Há pelo menos dois meses está em execução um ousado - e milionário - plano de mídia pago pelo contribuinte estadual para dar, digamos, uma mãozinha aos candidatos do PT na disputa deste ano. São dezenas de inserts na TV e no rádio, com temáticas voltadas a engrandecer as ações do governo Ana Julia, quase sempre ancoradas na muleta da popularidade do presidente Lula e das obras do PAC, em particular.
O que parece incrível é que tudo isso possa ocorrer impunemente, sem despertar sequer a curiosidade dos órgãos fiscalizadores. Nem o último comercial proclamando o sucesso obtido pela midiática ocupação policial-militar do bairro da Terra Firme em Belém - um dos mais violentos da cidade - causa escândalo, mesmo quando revela que os supostos resultados decorrem dos primeiros catorze dias de trabalho. Isso mesmo: catorze dias, somente.
É espantosa a capacidade de apuração dos órgãos de Segurança Pública quando colocados a serviço da, até agora inglória, tentativa de reanimar a esquálida campanha petista na capital.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Alegria de pobre

Durou muito pouco, quase nada, a promessa de emprego para os moradores das áreas atingidas pelas obras do PAC em Belém, sob a responsabilidade do governo do Estado. É que os "contratos" são de apenas três meses, sem qualquer garantia trabalhista. O "rodízio" seria a forma de atingir um maior número de pessoas e, claro, arrebanhar uma quantidade de votos ainda mais expressiva para candidatos muito bem apadrinhados.