sexta-feira, 5 de junho de 2009

Reciclagem parcial

Não chegou a ser uma autocrítica completa, mas ainda assim teve o peso de reconhecer um dos maiores crimes que a subserviência ao imperío norte-americano foi capaz de perpetrar. A revogação da proibição que desde 1962 excluía Cuba da Organização dos Estados Americanos (OEA) parace anunciar novos tempos para a diplomacia latino-americana e não deixa de ser uma vitória para os que, ao longo de mais de 40 anos, perfilaram contra o odioso bloqueio.
Para os cubanos, porém, a muito a caminhar. E não são poucas as pedras no caminho.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Na marca do pênalti

Não deu outra: a Medida Provisória 458, que consagra a grilagem sobre 67 milhões de hectares na Amazônia Legal, foi inteiramente aprovada no final da noite de ontem pelo Senado. Nenhuma emenda foi acatada e, assim, a bola rolou para a pequena área do presidente Lula. Caberá a ele a missão de sancionar o texto ou de impor algum pouco provável veto parcial. A descrença acerca dessa possibilidade decorre de um fato bastante simples: o rolo compressor governista, formado pelo PMDB, DEM e quase todo o PSDB, não agiu por conta própria. Sua inspiração partiu do Planalto, Lula e Dilma à frente, e pisoteou todo mundo, inclusive Marina Silva e alguns outros que tentaram aparar, por meio de destaques, algumas das arestas mais perigosas do projeto. Em vão, apesar da surpresa de um placar bem apertado.

Dentes arreganhados

O roteiro é o mesmo do ano passado. Na falta de bons argumentos, a força bruta da criminalização dos movimentos grevistas. O governo do Estado, após quase um mês de paralisação dos trabalhadores em educação, resolveu abrir sua caixa de ferramentas: fechou o diálogo com a categoria, ameaçou com o corte de ponto e ingressou com o pedido judicial de abusividade da greve.
A insensibilidade e truculência do governo do PT já havia produzido uma radicalização dos grevistas, que desde ontem ocupam pacificamente um dos prédios da Secretaria de Finanças, no centro de Belém.
Agora, o que poderia ser resolvido com habilidade e diálogo cai no poço da imponderabilidade. A governadora Ana Júlia demonstra que pretende pagar para ver.
A salgada conta, formada por um misto de decepção e revolta, será cobrada. Cedo ou tarde.

Boicote pela paz

O acordo entre Israel e o Mercosul continua empacado. Melhor assim. A ratificação do tratado de 2007 ainda percorre os intrincados caminhos da burocracia do Senado.
Após o massacre de milhares de palestinos na Faixa de Gaza, no final do ano passado, o acordo subiu no telhado.

Abaixo de zero

Quem disse que trabalho escravo somente ocorre nos sertões amazônicos? A 140 km de Curitiba, no rico Paraná, 29 trabalhadores foram encontrados numa fazenda em situação análoga à de escravo. Dormiam no curral, misturados com os animais. Bebiam água suja de um córrego e não tinham qualquer equipamento de proteção. Carteira assinada? Nem pensar.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

À beira do abismo

Neste momento o plenário do Senado está iniciando a discussão e votação da medida provisória 458, aquela que vai legalizar a grilagem em uma área de 67 milhões de hectares da Amazônia. A pretexto de reconhecer a posse dos pequenos agricultores, o governo e a bancada ruralista ampliaram o alcance da medida para abrigar os interesses de grandes proprietários - muitos dos quais decididamente grileiros - de lotes de até 1500 hectares.
Tanto é assim que a relatora da matéria, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), também presidenta da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), acaba de ler seu voto favorável à matéria aprovada na Câmara, sem alterar praticamente nenhuma vírgula. É que não é preciso alterar nada, porque as forças da destruição socioambiental estão para lá de satisfeitas com o andar da carruagem. Nunca estiveram tão bem representadas no governo e sorriem de orelha a orelha.
Ainda hoje à noite, salvo um milagre, será cometido um dos maiores crimes contra a Amazônia e seus povos.

Rafting no Xingu

Está provado: Belo Monte não será o passeio que os barrageiros imaginam. Outra pedra - de bom tamanho - foi colocada no caminho deste acidentado processo de licenciamento ambiental.

A lógica do patrão

O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) acredita firmemente no personagem que ele criou para si mesmo. Algo histriônico, absolutamente midiático, ao substituir a esgotada Marina Silva ele pareceu ser o homem certo no lugar certo. Faria bastante barulho, mas asseguraria, no ritmo exigido pelo Planalto, as licenças ambientais para os grandes projeto do PAC, notadamente no setor elétrico, epicentro da crise que levou à queda da senadora acreana.
A vida - sempre ela - não se submete à linearidades. Minc bem que tentou. Fez concessões variadas, cobrou reparações esquálidas e, às vezes, ridículas, foi levando o barco em águas turbulentas, acreditando que uma boa lábia e um relativo senso de equilibrismo seriam suficientes. Ao que parece, pode estar redondamente enganado.
A cada recuo, novas cobranças para satisfazer a fome insaciável por maiores flexibilizações na legislação ambiental. Não existe limite para os que advogam o desenvolvimento a qualquer custo e sacrossanto lucro do grande capital.
Agora, em posição de nítida desvantagem e depois de ter assistido seus "colegas" de ministério avançarem furiosos sobre seus precários domínios, Minc resolveu colocar a boca no trombone e denunciar os que querem destruir a legislação ambiental. Esses, note-se, estão dentro do mesmo governo e foram todos eles nomeados pelo mesmo presidente. Logo, talvez não sejam os titulares da Agricultura (Reinhold Stephanes ), Transportes (Alfredo Nascimento) e de Assuntos Estratégicos (Mangabeira Unger) que estejam fora de sintonia.
O patrão e chefe deles, o presidente Lula, sabe muito bem o que faz. Suas opções estão por demais consolidadas. Não demorará muito para que Carlos Minc descubra que não existe mais chão sob seus pés.

Mundo Animal

A CPI da Petrobras empacou e não foi por causa de manobras da oposição tucano-pefelista. Sentindo o cheiro de carne fresca, os predadores alojados no alto comando do PMDB não chegam a um acordo sobre o naco que caberá a cada um. Resultado: a guerrilha de bastidores evolui para confronto aberto e cruento.
No centro da disputa - que, evidentemente, nada tem a ver com o interesse público - em uniforme de campanha, Renan Calheiros e Romero Jucá.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A César o que é de César

A conta é salgada e deve ser paga por quem alimenta a cadeia da devastação. Veja a oportuna iniciativa do Ministério Público Federal no Pará.

Miss Antipatia

Fechou o tempo no Senado. E não foi por causa da não-instalação da CPI da Petrobras por manobra da base governista. No centro do bafafá, com direito a luz, câmera e ação de parrudos seguranças da Casa, uma bem-humorada crítica de ativistas do Greenpeace ironizando a toda-toda Kátia Abreu, musa da bancada da motosserra.

Filé Mignon

Enquanto a plateia se diverte com as manobras diversionistas na CPI da Petrobras, o verdadeiro negócio da China estará sendo definido a alguns quilômetros dali, num conclave interministerial presidido por Lula. Em jogo, a incomensurável riqueza do pré-sal, sob o olhar guloso das gigantescas transnacionais do ramo petrolífero.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Cartas sobre a mesa

Está aberta a consulta pública do Relatório de Impacto Ambiental (Rima) da hidrelétrica de Belo Monte, que o governo federal e as empreiteiras querem erguer, a todo custo, na volta grande do Rio Xingu, no Pará.
Sob cerrada críticas de cientistas, ambientalistas e de povos da floresta - indígenas, ribeirinhos e quilombolas -, o megaprojeto orçado em mais de R$ 7 bi (sem as linhas de transmissão) é a menina dos olhos dos que pretendem aprofundar o modelo energético ancorado na oferta de eletricidade abundante e quase de graça para as indústrias eletrointensivas, a Vale e suas congêneres.
É pouco provável, porém, que esta interminável novela esteja chegando mesmo ao fim. Agora será o momento de ouvir a fala - e o grito - dos que não se submetem à condição de meras estatísticas na conta dos prejuízos socioambientais.

E a GM foi à lona

Um dos maiores ícones do capitalismo dos Estados Unidos vai entrar em concordata. A crise é sempre muito mais profunda e complexa do que querem fazer crer os que manejam os cordéis do capital sem fronteiras.

Em busca do tesouro perdido

Os banqueiros estão com insônia. E não se trata de preocupação com uma eventual queda na lucratividade devido à crise global, pois sempre se encontra um jeito de continuar surfando - e ganhando muito - em todos os cenários, ainda mais quando seus interesses estão tão incrustrados no centro do poder de Estado.
A dor de cabeça vem de uma recente decisão da Receita Federal, que cansou de esperar uma decisão definitiva do judiciário e ameaça cobrar os mais de R$ 20 bi - quase dois orçamentos anuais da Bolsa Família - que a banca deve a título de não-recolhimento do PIS e da Cofins. As decisões judiciais provisórias que têm dado retaguarda aos banqueiros até agora, ao que tudo indica, já não são assim tão suficientes. Por que, então, ao longo de anos esse artifício foi docemente aceito pelas autoridades tributárias do governo Lula?