sábado, 11 de julho de 2009

As agulhas no insondável palheiro

Não são despropositadas as fortes suspeitas que recaem sobre a mais recente operação de busca das ossadas dos mortos da guerrilha do Araguaia, deflagrada nesta semana pelo Exécito brasileiro. Mais de seis anos após a corajosa sentença da desembargadora federal Solange Salgado, que determinava a abertura de todos os arquivos oficiais sobre a guerrilha em 120 dias, é pouco provável que a comissão criada pelo ministro Nelson Jobim (Defesa) apresente resultados positivos. É como procurar agulhas em um palheiro gigantesco cujo fundo foi movido e removido inúmeras vezes.
Para o Ministério Público Federal a ação deve ser suspensa até que várias pré-condições sejam satisfeitas. Entre elas, a oitiva de testemunhas - militares da ativa e da reserva, especialmente - que podem apontar com maior precisão os locais onde os corpos foram escondidos e, fundamentalmente, a garantia do controle social através da presença de membros das famílias das vítimas, do próprio MPF e de outras organizações defensoras de direitos humanos.
Com um pé atrás mas um tanto menos cético, o ex-vereador Paulo Fonteles Filho acompanha os trabalhos dos militares na região de influência da guerrilha, em pleno Araguaia paraense, indicado como observador pelo governo do Pará. Lança seu olhar crítico a partir do próprio centro de comando da operação, que tem enorme chance de se tornar em um esforço inútil, mas, contraditoriamente, pode servir para despertar o interesse da sociedade para essa cicatriz sangrenta da história brasileira.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

O inferno é aqui

Enxovia em pleno século XXI, a Seccional do Comércio, no centro de Belém, é o retrato da falência do sistema prisional no governa Ana Júlia (PT). A fuga de dezoito presos na noite de ontem, 9, apenas lança luz sobre uma situação de absoluta indignidade: 38 detentos divindo um espaço originalmente projetado para apenas três.
Diante do quadro dantesco, um dos presos declarou à reportagem do Amazônia: "Sou bandido, mas sou ser humano". Ele tem razão, pois quem, nos mais altos escalões e em diversos dos poderes do Estado, é conivente com essa barbárie não é menos bandido. Talvez mais, muito mais.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Mangabeira Unger, o breve

Qual o legado do ministro Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos), que teve seu retorno à Universidade de Havard recentemente anunciado pelo presidente Lula?
Suas pegadas ficarão espalhadas por aí, como um dinossauro bem atrapalhado, mas que ninguém se engane: ele trabalhou até agora com objetivos muitíssimos claros.
Por trás do sotaque enrolado e um certo jeitão neocon, Magabeira sempre investiu pesado contra todas as bandeiras da esquerda. Entre seus feitos, certamente, está a criação do cenário para o desmonte da política ambiental, para o deleite dos modernos coronéis do agronegócio.
Quando estiver voando para as terras do Tio Sam, ele poderia fazer um exame de consciência sobre suas mal explicadas e suspeitíssimas relações com o banqueiro Daniel Dantas. O resultado não seria nada agradável.

Águas profundas

Sarney e seu clã parecem ser uma plataforma oceânica de escândalos, que não param de jorrar. No meio da confusão, o Planalto vai insistir, por falta de outra opção, na operação salvamento, torcendo para o que recesso chegue logo, antes que seja tarde demais.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Derrubar todos os muros da opressão

Logo mais às 17h, no auditório do Centro Integrado de Governo (CIG), na avenida Nazaré, será realizado um debate aberto ao público com o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alceben, com o tema "A luta dos povos pela soberania nacional". A promoção da atividade solidária e internacionalista é do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), presidido por Socorro Gomes, ex-deputada federal pelo PCdoB.

Choro de barriga cheia

Ano passado, no auge da euforia pré-crise, o caixa do governo federal ficou abarrotado com uma arrecadação recorde, elevando a carga tributária a inéditos 35,8% do Produto Interno Bruto (PIB), somatória de tudo que o país produz. Com esse gancho, o jornalismo econômico a serviço da extração máxima de mais-valia vai ter um bom motivo para vituperar contra a suposta sanha arrecadatória do governo, que "asfixia a sociedade como um todo". Como um todo? Nada mais distante da realidade.
A carga tributária no Brasil é, de fato, muito pesada, mas é também injusta e regressiva. Atinge com muito mais violência os pobres e o consumo, enquanto os ricos com seus patrimônios e rendimentos financeiros praticamente isentos de tributação operam, também pela via fiscal, a permanente transfusão de renda dos que têm quase nada para os que crêem nunca ter o suficiente.
Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Avançada (IPEA), ligado ao Ministério do Planejamento, desvenda, com números irrefutáveis, o enígma do sistema tributário brasileiro, e prova que são os pobres que pagam a maior parte da conta. E, por vias indiretas, financiam a farra bilionária que faz a roda da fortuna girar incessantemente e somente numa única direção.

Ensaio sobre a cegueira

Cega? Não, a Justiça, quando muito caolha, sabe muito bem escolher para que lado sua balança vai pender. Na esmagadora maioria das vezes serve de cerca protetora aos interesses - confessos ou não - dos poderosos de sempre. Foi o caso da recente sentença que condenou o jornalista Lúcio Flávio Pinto, editor solitário do Jornal Pessoal, por colocar no papel aquilo que até as pedras de lioz que ainda revestem parte de nossas maltratadas calçadas de Belém estão cansadas de saber.
A reação de Lúcio pode ser lida aqui.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Blogosfera em transe

No princípio, bem no princípio, era o caos. E dentro dele e contra ele, a palavra, onipotente, criou todo o resto.
Ela, a palavra, era tudo. E, com sua mão criadora, foi moldando todo o resto, todas as coisas, todos os entes.
Por isso, a forja do mundo é a palavra, com sua força, com sua potência criadora e destruidora, num único e poderoso vórtice.
Quem são os artífices da palavra?
Quem alcança o estágio sublime de estabelecer sobre elas o total domínio?
E, mais importante, quem são aqueles artesãos que utilizam, com coragem e dignidade, esse poder a favor da maioria, contra todas as formas de manifestação da prepotência e da boçalidade?
São tão poucos, é verdade. Mas existem e se disseminam. Ainda mais agora, nesta quadra dramática, em que um teclado e um endereço IP podem - e devem - sempre fazer a diferença. São eles que buscam desvelar a realidade através do incontrolável espaço virtual, antídoto moderno contra o sacrossanto poder dos plutocratas da mídia e suas caixas registradoras.
Juvêncio Arruda, nosso maior mestre da blogosfera paroara, é um desses artesãos da palavra verdadeira. O seu Quinta Emenda virou patrimônio e vício diário de centenas, quiçá, de milhares de internautas por esse mundo sem fronteiras. Leitura obrigatória, fonte cotidiana de informação da mais alta qualidade, o blog do Juva é muito mais que necessário. É absolutamente indispensável.
Mas, nesse momento em que Juvêncio trava uma decisiva batalha contra uma doença insidiosa, o que ele precisa receber, de todos e de todos os cantos, é a mais pura solidariedade dos que o admiram e torcem por sua pronta recuperação.
Que seja inaugurada uma corrente entre seus incontáveis amigos e leitores, numa sintonia ampla, geral e irrestrita, para que o mestre encontre carinho, calor humano e, sobretudo, energia para dar a volta por cima.

O massacre nosso de cada dia

Mais uma chacina de trabalhadores rurais sem terra. A matança foi no agreste pernambucano e vitimou, de uma só vez, cinco integrantes do MST no assentamento Chico Mendes, na antiga fazenda Garrote, desapropriada há três anos pelo Incra.
A polícia, como sempre, ainda está sem pistas. Não demora, surge alguém sugerindo que tudo não passou de "crime comum", fruto de alguma desavença entre os agricultores.
A apologia à violência dos jagunços a soldo do latifúndio e do agronegócio continua a semear desgraça e estupidez por esses sertões em fim. Até quando? Eis uma pergunta que permanece dramaticamente sem resposta.

O elo que não se perde

Para o Procuradoria da República em São Paulo as manhas e tramanhas de Daniel Dantas e seu poderoso braço financeiro, o bilionário grupo Opportunity, são rima rica com falcatruas várias e diversas. Lavagem de dinheiro, crimes contra a ordem financeira, sonegação fiscal e - o que não deve surpreender ninguém - tráfico de influência junto a inúmeros escalões do poder político nacional.
O elo quase perdido entre Dantas e o esquema do mensalão, via empresas de Marcos Valério, acaba de ser descoberto e está estampado, com destaque, nas edições de hoje dos principais jornais do país.
Cevando o obscuro relacionamento entre o banqueiro mais famoso (e enrolado) do Brasil e o infeliz esquema de corrupção montado pelo PT, uma quantia estimada em pelo menos R$ 3,3 milhões de reais.

Ponto final

Na surdina, longe dos holofotes da imprensa, a esmagadora maioria conservadora e direitista do Senado, tendo a beligerante bancada ruralista no comando, lançou a pá de cal sobre as últimas esperanças - se é que alguém ainda as tinha - do governo Lula realizar algo que se assemelhe a uma reforma agrária. Saiba os detalhes sórdidos no sempre excelente e oportuno texto de Leonardo Sakamoto.

As muitas faces de um senhor da guerra

Robert S. McNamara morreu ontem, 6, enquanto dormia. Tinha 93 anos e atravessou o século XX como testemunha e protagonista privilegiado das ações belicistas do império norte-americano, a quem serviu com inegável competência.
Qual terá sido seu último sonho, no exato momento em que a morte, implacável e definitiva, pôs fim à sua longa carreira de intelectual orgânico da elite do centro do poder mundial?
O Japão e suas centenas de milhares de vítimas, queimando em agonia sob o intenso bombardeio da aviação dos Estados Unidos enquanto ele, integrado ao alto comando aliado no Pacífico, fazia os cálculos para tornar mais eficiente - e econômica - aquela horrenda máquina de matança de inocentes?
A linha de produção da Ford em seu alucinante crescimento naqueles anos dourados quando ele, um jovem e talentoso profissional , tornava-se o primeiro presidente da corporação que não era egresso da família dos plutocratas que a haviam fundado poucas décadas antes?
A pequena e rebelde Cuba durante os dias que precederam o quase fim do mundo, na grande crise dos mísseis no início dos 60, enquanto ele, tornado principal conselheiro do presidente Kennedy antevia a iminente destruição global?
Ou, na verdade, McNamara perdeu o fôlego para sempre debatendo-se com o pesadelo da tragédia do Vietnan, afogado num mar de sangue de milhões de suas vítimas, enquanto o acre cheiro de napalm e as chamas que a tudo devoravam faziam o pano de fundo do inferno cuja culpa ele carregou até seu último dia?
Próximo do final da vida, já com 86 anos, Robert Macnamara refletiu sobre o seu passado e tentou tirar lições de tudo que viveu. Tornou-se um pacifista confesso, sem contudo abdicar completamente das razões que estiveram na base de sua carreira tão rica quanto contraditória. Rompendo a névoa da guerra tentou retirar ensinamentos e elaborar antítodos à barbárie que se manifesta na voragem estúpida e imoral patrocinada por aqueles que têm os senhores da guerra em suas régias folhas de pagamento.
Nada indica, porém, que o velho pregador tenha partido tranquilo ao perceber a incontornável capacidade de reciclagem do sistema que engendrou as cenas dantestacas que povoaram por tantas décadas o sono e a vigília deste homem atípico e genial.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

No ar, mas nem tanto

Nos próximos dias o Página Crítica vai ficar mais ou menos congelado. As tarefas profissionais do poster obrigam essa parada técnica.
A partir da terça, 7, a vida deverá voltar ao normal.

Minha casa, minha vida

Tem uma casa no caminho do presidente do Senado, José Sarney. Ela vale, pelo menos, R$ 4 milhões e por longos anos foi sonegada do leão da Receita e dos olhos nem sempre vigilantes da Justiça Eleitoral.

Às vésperas do fim do mundo

Centenas de milhares de pessoas sem água na capital por quase 48 horas seguidas.
A internet e parte da telefonia fora do ar e os sistemas bancários em pane. E o mar de lama que escorre por todos os lados e por todas as paredes de vários e diversos palácios.
É o verão que começa quente, aliás, quentíssimo.