quinta-feira, 31 de julho de 2008

Por baixo dos panos

Emergiu, nos últimos dias, por trás das manobras diversionistas de praxe, a questão do prometido aumento da tarifa de ônibus urbano em Belém, prometido muito convenientemente para sair somente depois que o último voto, no eventual segundo turno, for computado.
O enredo não chega a ser original. Os empresários derramam lágrimas de sangue, alegando não ter mais como sustentar o sistema - cada vez mais caótico e canibalizado -, enquanto a Prefeitura faz de conta que o assunto não lhe diz respeito. Enquanto isso, longe dos holofotes e do olhar curioso da opinião pública, vai se desenhando os termos, envolvendo custos, condições e partilhas, de um tarifaço de enorme impacto sobre o combalido orçamento da grande maioria da população.
Logo logo, algumas línguas venenosas, por pura maldade, começarão a insinuar que tudo pode terminar em festa. Para uns poucos, é claro.

Oh, abre alas!

O Grêmio Recreativo dos Unidos da Grilagem pede passagem. Em nota pública, publicada nos jornais paraenses de hoje, a Federação da Agricultura, sindicatos rurais e outros congêneres cerraram fileiras na defesa da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara S/A, da quadrilha de Daniel Dantas.
A nota cobre de elogios um empreendimento suspeito da prática de vários crimes, da grilagem de terras públicas até a lavagem de dinheiro através da compra, em larguíssima escala, de ativos no campo paraense. Em poucos mais de dois anos, o grupo Opportunity já se diz dono de 500 mil hectares e de um rebanho de meio milhão de cabeças. Coroados como os novos reis do gado, podem contar com uma tropa de fiéis vassalos, dispostos a defender a perpetuação dos crimes cometidos contra o patrimônio público.

Um ciclo sem virtude

O governo Lula acaba de anunciar, sob intenso foguetório, que atingiu no primeiro semestre um superávit primário de R$ 86, 12 bilhões, correspondente a 6,19% do PIB (Produto Interno Bruto). Um recorde, afirmam os técnicos do Banco Central.
Mas, logo vem a revelação da outra face da moeda: no mesmo período, o gasto da União, Estados e municípios para o pagamento da dívida pública interna também bateu todos os recordes, suplantando em quase dois bilhões o esforço fiscal realizado. Foram cair nos alforjes dos banqueiros, rentistas e especuladores nada menos do que R$ 88,03 bilhões, o maior valor desde 1991.
E, como era de se esperar, eles ainda estão famintos e torcem para que a política de elevação dos juros, retomada com vigor por seu maior representante, o banqueiro Henrique Meireles, prossiga nos próximos meses.
Só muita cara de pau para, em paralelo, o presidente Lula continuar insistindo no surrado argumento de que o financiamento da saúde entrará em colapso se o Congresso não se ajoelhar, penitente, recriando até dezembro a antiga CPMF, agora sob novo nome - CSS - mas sem perder o travo amargo do embuste político.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Palavras de Fogo

Para além da luta fratricida que consome militantes petistas entrincheirados no governo de Ana Julia, uma frase escrita por Charles Alcântara, ex-chefe da Casa Civil e agora ativo integrante da blogosfera, deveria despertar a atenção de uma seleta audiência. Diz ele que o governo petista “não é meio para enriquecer uns e conferir prestígio a outros”. Pois bem: o distinto público tem o direito de saber quem são esses “uns” que utilizam o governo para enriquecer.
Perdida na selva de centenas de palavras flamejantes, eis aí uma declaração que estar por merecer uma atenção especial, muitíssimo especial, por parte de quem possui, por dever funcional e por imperativo de consciência, a obrigação de proteger o patrimônio público e os direitos da sociedade paraense.

Um prêmio à traição

José Anselmo dos Santos não é um homem qualquer. Sob seus ombros repousa a responsabilidade direta pelo extermínio de dezenas de militantes políticos durante o regime militar. Cabo Anselmo, como ficou conhecido, foi um traidor. Em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, ele "trocou de lado", tornando-se um infiltrado nas organizações da resistência armada. Um "cachorro", no jargão das forças repressivas.
Agora, tantos anos depois, através de seus advogados, ele demanda junto à Comissão de Anistia, em Brasília, o suposto direito à "indenização" em decorrência das "perseguições" que teria sofrido durante a ditadura.
Em 1984, ao lendário repórter Octávio Ribeiro, o Peninha, Anselmo concedeu uma antológica entrevista à revista Isto É. Nela, ele revelou estar vivendo sob nome falso e com o rosto modificado por cirurgias plásticas. Perguntado quantas pessoas teriam morrido em função de seu trabalho como delator, Anselmo respondeu: "Umas cem, duzentas". Dormia tranqüilo apesar disso? Ele foi direto: "Absolutamente. Durmo com a consciência tranqüila. Se fosse necessário, faria tudo outra vez.".
Entre suas vítimas estão militantes experientes - alguns ex-militares como ele e quadros da luta armada que haviam recebido treinamento militar em Cuba. Muitos foram presos com vida e depois supliciados até a morte em prisões oficiais ou em campos clandestinos de extermínio. Para não deixar dúvida sobre o caráter criminoso desse personagem, é sempre conveniente lembrar que ele não hesitou sequer em entregar para a morte sua própria namorada, a paraguaia Soledad Barret Viedma, que à época estava grávida de quatro meses. Segundo relatos de sobreviventes, o corpo de Soledad foi colocado dentro de um barril metálico, nu e encharcado em seu próprio sangue. Ela e mais cinco guerrilheiros morreram na chacina da Chácara São Bento, na periferia de Recife, em 1973.
Somente a pressão das entidades de direitos humanos e das ONGs que representam os familiares dos mortos e desaparecidos poderá impedir a consumação dessa ignomínia.

Lombroso está vivo e passeia pelas ladeiras cariocas

Vejamos esta afirmação: os criminosos do Rio de Janeiro trazem do "ventre da mãe" a cultura da violência. Esta opinião já seria motivo para escândalo pelo racismo que poreja, mas alcança níveis inimagináveis de escárnio quando proferida pela autoridade que ocupa o ápice da pirâmide de segurança do Estado, o delegado José Mariano Beltrame.
A cidade do Rio de Janeiro, em guerra civil não-declarada, com milhares de vítimas todos os anos, não merece assistir a ressurreição das teorias do "criminoso nato", arrancadas das trevas do século XIX para tentar justificar o mais completo fracasso no combate às causas reais - e, portanto, profundas e históricas - que explicam o banho de sangue que mancha diariamente a paisagem carioca.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Dialética do mundo e seus múltiplos espelhos

"(...) Para poder fazer o mundo a minha imagem, foi preciso me converter eu mesmo no mundo, e me descobrindo com ele, oferecido, aberto. Passo por cima do mundo com cada um que passa por cima de mim. No grande espelho do amor o mundo e eu nos contemplamos, surpresos, cada um com a máscara do outro, tratando de ler nessa inversão multiplicada como um palimpsesto impossível."

Juan José Saer (1937-2005), escritor e ensaísta argentino. El Espejo (Cuentos Completos - 1957-2000, p. 198-199, Seix Barral, 2001)

Uma oportunidade de ouro

Esta aí a chance que faltava: se quiser, o governo do Estado pode iniciar pelas terras do Opportunity a devassa fundiária capaz de revelar como, ao logo das décadas, o patrimônio público engordou fortunas pelo Pará afora, impunemente. Se quiser de verdade, tomando as medidas com a profundidade e zelo exigidas. O que significa escolher um dos lados dessa sangrenta disputa territorial, que opõe o latifúndio e o moderno agronegócio, de um lado, e a massa informe de despossuídos, no limite do desespero e da revolta surda, de outro. É pegar ou largar.

Podem esperar que ela vem aí

O Ministério da Saúde adverte: 2009 será o ano da dengue, com o provável alastramento de uma epidemia em escala nacional, expandindo para, pelo menos, 14 Estados a tragédia vivenciada pelo Rio de Janeiro neste verão. E vejam quem está muito bem posicionado na lista macabra: o Pará e seu sistema de prevenção em frangalhos.

Grampolândia

Para cada grampo autorizado pela Justiça, pelo menos três são realizados ilegalmente no país. Em 2007, segundo estimativa da CPI das Escutas Telefônicas, 1.250.000 linhas foram xeretadas em todo o Brasil, a enorme maioria alimentando um lucrativo mercado paralelo da espionagem.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Be-a-bá

Acossado por uma incorrigível mania de engolir os "s" finais das palavras, entre outros pecados contra a última flor do Lácio, tem candidato a prefeito de Belém obrigado a recorrer à ajuda especializada, antes que tais subtrações se reflitam na contabilidade eleitoral. Lá nas terras de além-mar, essa disciplina médica recebe o nome de Terapia da Fala. Ou, como chamamos aqui sob os trópicos, Fonoaudiologia.

Todos os homens do presidente

Com a diminuição gradativa da exploração midiática em escala global da controvertida operação que libertou Ingrid Betancourt e uma dezena de outros reféns das Farc, começa a vir à tona o lado tenebroso do governo do direitista Álvaro Uribe, na Colômbia. As agências internacionais de notícia veicularam neste final de semana, por exemplo, a prisão do senador Carlos García, principal líder do Partido da Unidade Social Nacional, por ordem da Suprema Corte colombiana, que investiga a relação de políticos com os paramilitares, acusados do assassinato de milhares de pessoas nos últimos anos.
Com a prisão de García, que era o maior defensor do terceiro mandato para Uribe, já são 31 políticos detidos por envolvimento com os "paras", algo como 10% dos membros do Congresso Nacional, que se somam a outros 10% processados por diversos crimes, sempre relacionados com os métodos criminosos das antigas (e, aparentemente, desmobilizadas) Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). Milícias criadas originalmente para combater as guerrilhas de esquerda, mas que logo se conformaram em braço armado do narcotráfico e da chamada narcopolítica, os “paras” são responsáveis por um banho de sangue sem fim, que agora se volta contra ex-integrantes desses mesmos bandos. Organizações de direitos humanos reportam o assassinato de, pelo menos, 819 ex-"paras", de 2006 para cá, em supostas pugnas internas ou simples acertos de contas.
Por tudo isso, guardar distância e Álvaro Uribe deveria ser um procedimento padrão, recomendável para os que não queiram macular de maneira definitiva suas biografias presidenciais no atual quadro político sul-americano.

Dados viciados

A trinca formada pelas gigantes Andrade Gutierrez, Camargo Correa e Norberto Odebrecht é pule de dez para ganhar a "concorrência" para a futura - e ainda incerta - construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu paraense, consumindo uma verba que inicialmente prevista para R$ 7 bilhões poderá tranqüilamente romper e ultrapassar em muito essa estimativa, como já é costume nas grandes obras de construção no setor elétrico.
É que coube a elas, por decisão unilateral da Eletrobrás, sem licitação, elaborar o EIA-Rima, em processo que continua sob bombardeio cerrado do Ministério Público Federal (MPF). De posse de informações estratégicas, não será difícil para esse futuro consórcio superar os eventuais outros concorrentes quando for aberto o leilão para a escolha dos construtores da obra. Cartas marcadas e devidamente enlameadas pela relação promíscua entre os interesses privados (de sempre) e os dóceis administradores da maltratada coisa pública.

sábado, 26 de julho de 2008

Drop out

Aproveitem o restinho do final de semana. Na segunda, sem falta, o Página Crítica estará de volta com postagens e moderação dos comentários. Até lá.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Senso de Oportunidade

Perto de mil integrantes do Movimento dos Sem Terra (MST) ocuparam na manhã de hoje a fazenda Maria Bonita, em Xinguara, sudeste do Pará. Seria apenas mais uma das tantas ações para lembrar a passagem do 25 de julho, Dia do Trabalhador Rural, não fosse a pretensa proprietária da área uma das empresas integrantes do grupo Opportunity, do encalacrado Daniel Dantas. A fazenda integra um enorme latifúndio de 28 mil hectares, hoje sob o mando da Agropecuária Santa Bárbara, controlada por Carlos Rodenburg, ex-cunhado de Dantas, que é detentora de um dos maiores rebanhos do Brasil, com 500 mil cabeças, mas que até 2005 pertencia a Benedito Mutran Filho, um dos remanescentes do clã que durante décadas dominou a região do entorno de Marabá, utilizando-se de métodos particularmente violentos e sempre através da apropriação ilegal de extensas áreas públicas no antigo Polígono dos Castanhais.
A suspeita de que, pelo menos, parte da Santa Bárbara - integrada a partir da junção das antigas fazendas Maria Bonita, Espírito Santo e Cedro -, seria formada por terras aforadas pelo Estado exclusivamente para fins de colonização ou de extrativismo, e ilegalmente vendida ao Opportunity, serve agora de argumento para a ação dos sem terra, que se declaram dispostos a resistir até que o Incra e o governo do Estado revertam a propriedade para o assentamento de centenas de famílias que estão, há anos, acampadas na região na espera de uma cada dia mais improvável Reforma Agrária.