quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

E lá se foram os anéis

E 2008 chegou ao fim. E com ele lá se foram alguns dos anéis mais preciosos do capitalismo do lucro fácil e da megaespeculação. Faliram os cinco mais reluzentes bancos de investimento de Wall Street: Bear Stearns, Lehman Brothers, Merryll Linch, Morgan Stanley e Goldman Sachs. Ruíram como um castelo de cartas, deixando um rastro de bilhões de dólares em prejuízos. Mas, calma. Seus executivos não precisaram amargar as agruras da repentina miséria. Durante anos a fio acumularam lucros fabulosos e foram bem espertos na hora de estabelecer, para si mesmos, prêmios e outros dividendos de sua rapinagem.
Veja-se um único exemplo: Richard Fuld, chairman do falido Lehman Brothers, velho ícone da banca estadunidense, desde 1850 em atividade, ganhou, somente em 2007, cerca de 450 milhões de dólares.
E, como o show precisa continuar, na hora H, veio a mão salvadora do Estado, abrindo as portas da esperança com sua ajuda de alguns trilhões. Só para começar, porque as entranhas do sistema ainda podem guardar muitas turbulências para o ano que principia. Quem sobreviver, verá.

Bombardeio de Ashkelon é ironia trágica

Do renomado jornalista inglês Robert Fisk, 62, do "The Independent", hoje, na Folha de São Paulo:

Como é fácil desconsiderar a história dos palestinos, apagar a narrativa de sua tragédia, evitar mencionar uma grotesca ironia sobre Gaza que em qualquer outro conflito estaria entre os primeiros fatos a serem mencionados pelos jornalistas: o fato de que os proprietários originais, legais, das terras israelenses que os foguetes do Hamas agora tomam como alvo vivem em Gaza.
É por isso que Gaza existe: os palestinos que viviam em Ashkelon e nos campos vizinhos -Askalaan, em árabe- foram expulsos de suas terras em 1948, quando Israel foi criado, e terminaram nas praias de Gaza. Eles ou seus filhos, netos e bisnetos estão entre o 1,5 milhão de palestinos amontoados na fossa fétida de Gaza, onde 80% das famílias um dia viveram em terras que hoje pertencem a Israel. Esse é o verdadeiro assunto, em termos históricos: a maioria dos moradores de Gaza não vem de Gaza.
Mas, ao assistir aos telejornais, seria de imaginar que a história começou ontem, que um bando de islâmicos anti-semitas, barbados e lunáticos subitamente irrompeu dos cortiços de Gaza e começou a disparar mísseis contra Israel, um Estado democrático e amante da paz, e por isso atraiu a justa vingança da Força Aérea israelense. O fato de que as cinco irmãs mortas no campo de Jabaliya tenham avós oriundos das mesmas terras cujos proprietários mais recentes as mataram em um bombardeio simplesmente não é mencionado.
Tanto Yitzhak Rabin quanto Shimon Peres disseram, nos anos 90, que desejavam que Gaza simplesmente desaparecesse, e o motivo é compreensível. A existência de Gaza serve como lembrete aos israelenses das centenas de milhares de palestinos que perderam seus lares, que fugiram ou foram expulsos por medo da limpeza étnica que Israel conduziu 60 anos atrás, quando levas de refugiados ainda vagueavam pela Europa e um bando de árabes expulsos de suas terras não preocupava o mundo.
Bem, o mundo deveria se preocupar, agora. Aglomerado em uma das regiões mais superpovoadas do planeta vive um povo que mora em meio ao lixo e aos esgotos e, nos últimos seis meses, vive sem energia elétrica ou comida suficiente, vítima de sanções impostas por nós, o Ocidente. Infelizmente para os palestinos, a mais poderosa voz política -e falo do intelectual Edward Said, e não do corrupto Iasser Arafat (que falta os israelenses devem sentir dele no momento)- se calou, e o sofrimento deles não está sendo exposto ao mundo por seus deploráveis e tolos porta-vozes.
"Trata-se do lugar mais aterrorizante que já visitei", disse Said sobre Gaza. É claro que coube à ministra do Exterior israelense, Tzipi Livni, admitir que "ocasionalmente os civis também têm de pagar", argumento que ela não apresentaria caso as estatísticas sobre mortos fossem revertidas. Se mais de 300 israelenses tivessem morrido, podem ter certeza de que os números seriam enfatizados.
Descobrir que tanto os EUA quanto o Reino Unido se recusam a condenar a agressão israelense e atribuem a culpa ao Hamas não surpreende. A política dos EUA e a de Israel para o Oriente Médio se tornaram impossíveis de distinguir. Como de hábito, os sátrapas árabes, em larga medida bancados pelo Ocidente, optaram pelo silêncio e convocaram uma ridícula conferência de cúpula sobre a crise, que apontará um comitê para preparar um relatório que jamais será redigido.
Pois é assim que funciona o mundo árabe e seus corruptos governantes. Quanto ao Hamas, ele com certeza apreciará o desconforto causado aos potentados árabes e esperará cinicamente que Israel dialogue com ele. E o diálogo acontecerá.
Na verdade, dentro de alguns meses, seremos informados de que Israel e o Hamas vinham conduzindo "negociações secretas" da mesma maneira que um dia ouvimos a mesma notícia sobre Israel e a ainda mais corrupta OLP (Organização para a Libertação da Palestina). Mas, quando isso acontecer, os mortos já estarão sepultados, e nós estaremos enfrentando a crise que surgirá depois da mais nova crise.


Tradução de PAULO MIGLIACCI


Reforma Ortográfica

O manejo da língua portuguesa nunca foi o forte do reeleito Duciomar Costa (PTB). Trombadas frequentes com as normas gramaticais são, em verdade, pecadilhos se comparadas com coisas muito mais graves que ele vem cometendo, ao longo de tantos anos e em absoluta impunidade. Mas se previa que o prefeito de Belém fosse mais hábil no bê-á-bá do pacotão de Natal anunciado para ser aberto - não por coincidência - bem no finalzinho do ano, 29 e 30 de dezembro.
Ao todo são cinco grandes concorrências públicas centradas na implantação, conservação e manutenção do sistema viário, no tratamento de resíduos sólidos no lixão do Aurá e na abertura de uma nova estrada por dentro do Parque Ambiental do Utinga. A par da evidente insensatez deste último projeto, trata-se de negócio de muito$ e muito$ milhões, com validade de até cinco anos. Um presente para Papai Noel nenhum botar defeito.
Pois bem: todas as licitações foram transferidas, através de editais minúsculos publicados hoje na imprensa, para os próximos 6 e 7 de janeiro. É que conciliar interesses assim tão diversos pode mesmo exigir mais tempo e, quem sabe, muito mais que a reconhecida lábia de gente que acha que pode tudo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A palavra certa

“Israel está cometendo uma série chocante de atrocidades usando armamentos modernos contra uma população indefesa, atacando uma população que já vem enfrentando um bloqueio severo por muitos meses e ignorando a possibilidade do restabelecimento de um cessar-fogo que a liderança do Hamas havia proposto”.
A frase partiu de um cidadão insuspeito, Richard Falk, relator especial das Nações Unidas para os Direitos Humanos nos Territórios Palestinos. Ele está indignado com a ofensiva israelense e, ao mesmo tempo, com a passividade da comunidade internacional diante do massacre.
Na BBC Brasil, a matéria completa.

Piada de brasileiro

Rindo à-toa da queda mais que esperada do ex-diretor da Agência Brasileira de Informações (Abin), delegado Paulo Lacerda, e de seu exílio dourado no (ainda) inexistente cargo de adido policial em Portugal, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, o presidente do STF, Gilmar Mendes, e ele, sempre ele, o intocável Daniel Dantas.
Uma vitória do pessoal do colarinho branco, afirma o nada risonho Paulo Henrique Amorim.

Nivelando por baixo

A alegada política de inclusão dos estudantes pobres nos cursos superiores - o Prouni - aparece aqui desvelada em sua dimensão mais crítica: muito dinheiro público para sustentar empresas educacionais de baixíssima qualidade.

Contra a barbárie, capacetes azuis

As agências internacionais não param de atualizar o placar macabro: são mais de 375 mortos e 1600 feridos na mais nova e brutal ofensiva de Israel contra o povo palestino. É isso mesmo: é uma guerra contra um povo e não contra um suposto grupo terrorista, como quer fazer crer a propaganda israelense.
A diplomacia internacional trata o assunto como uma banalidade. Pede "moderação", denuncia o caráter "desproporcional" da resposta de Israel, condena o lançamento de foguetes pela guerrilha palestina equiparando-o às toneladas de explosivos despejados pela aviação de caça do mais bem armado país do Oriente Médio. Numa palavra, se depender dos governos, inclusive das nações árabes, o pogrom vai continuar afogando Gaza em sangue.
A nota do Itamaraty é um emblema destes novos tempos. E como regrediu, sob o governo do PT e de Lula, a posição brasileira, outrora muito mais afinada com a luta histórica pela auto-determinação do povo palestino. São sutis - se é que existem - as diferenças entre a visão do Brasil e aquela expressa pela União Européia, por exemplo. O marco político é, todavia, o mesmo e está sob forte influência deste longo período de supremacia mundial de Bush e seus asseclas.
A esperança, como sempre, está nas mãos dos povos. As manifestações contra o massacre se multiplicam em todas as partes, inclusive no interior de Israel, envolvendo árabes palestinos e judeus progressistas. É aí justamente que reside a possibilidade de se conseguir um cessar fogo efetivo, que não pode prescindir do envio imediato de uma força de paz da ONU, os capacetes azuis, para criar uma zona de segurança na fronteira de Gaza. Fora disso estaremos apenas fomentando o palavreado inútil e irremediavelmente cúmplice.

Sujeira para cima do tapete

A lista suja do trabalho escravo sofreu mais uma atualização. São 19 novos integrantes deste cadastro que visa combater a escravidão contemporânea.
O Pará participa com três novos proprietários (15,7% do total). São eles: os pecuaristas Romildo Contarini, da Fazenda Santa Luzia, em Ipixuna do Pará (PA), Benedito Neto Faria, da Fazenda Santa Teresa, em São Félix do Xingu, e Isaac Aguiar, proprietário da Fazenda Colônia, em Ulianópolis, este último também envolvido num esquema de aliciamento de trabalhadores para serem esravizados nas fazendas da região.
Uma ampla e detalhada matéria pode ser lida no site do Repórter Brasil.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Belo Monte ao sabor da crise. Será?

As idas e vindas da crise global, com sua enorme carga de imprevisibilidade, pode afetar os planos da construção de novas barragens na Amazônia. No olho do furação, os planos de licitar, já no próximo ano, a Usina de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará, podem sofrer atraso. É o que afirmam especialistas ouvidos pelo Estadão.

Página Crítica, ano II

E o Página Crítica está no berço. Completa um ano de existência hoje, registrando 31.607 acessos.
A todos e a todas, muitíssimo obrigado.

Gigantes de papel

De cada quatro livros vendidos no Brasil, um é comprado pelo governo. No bilionário mercado dos didáticos, a participação do governo é ainda maior, ultrapassando os 40%.
Essa montanha de papel move uma indústria cada dia mais concentrada e desnacionalizada. Atuavam no país em 2006, segundo pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da Universidade de São Paulo (USP), 14 editoras estrangeiras, entre elas a gigante espanhola Santillana, que pagou 150 milhões de reais pela Editora Moderna, responsável por 30% da venda nacional de livros escolares.

Democracia de araque

Tamar Katz, Raz Bar-David Varon e Yuval Oron-Ofir têm muito mais em comum do que serem israelenses. São prisioneiros de consciência. Eles se recusaram a prestar o serviço militar obrigatório. Vale dizer, se negaram a integrar as forças de ocupação nos Territórios Palestinos, atirar contra civis, desrespeitar abertamente os direitos humanos e destruir propriedades de famílias indefesas.
Com apenas 19 anos, Tamar Katz é uma jovem insubmissa. Há mais de 50 dias está encarcerada, em regime de isolamento total. Em sua declaração perante a Justiça, ela afirmou: “não estou disposta a tomar parte em um exército de ocupação [...] não estou disposta a figurar entre aqueles que apontam armas indiscriminadamente contra civis palestinos e não acredito que tais atos tragam alguma mudança, salvo mais antagonismo e violência para a nossa região”.
A Anistia Internacional promove uma campanha mundial pela libertação de todos os prisioneiros de consciência em Isarel. Para participar, clique aqui.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Várias pedras no caminho

Quem são os verdadeiros depredadores do patrimônio público? Quem se manifesta contra a privatização de grandes bacias de petróleo e gás ou quem dirige, do alto, este processo de lesa-Pátria?
Algumas pistas sobre esse dilema no Correio da Cidadania.

Democratizar o ciberespaço, já

Enquanto no Brasil a Anatel segue em sua campanha de perseguição implacável às rádios e TVs comunitárias, o bom exemplo vem de onde menos se espera. A FCC (Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos) acaba de liberar as faixas de frequência, denominadas "espacos em branco" (white spaces) que existem entre os canais de TV. Com isso, estarão abertas amplas possibilidades de uso individual ou comunitário, sobretudo com novas aplicações nas áreas da conectividade em banda larga e internet, rompendo o monopólio das grandes corporações midiáticas.
Por aqui, sob a ditadura da Globo e das demais filiadas da Abert, ainda é tímida a campanha pelo Open Spectrum.

Belém, 1822: Cabanagem em germe

Qual a face de Belém no ano de 1822, no limiar da dita Independência?
Vejamos o que Antônio Ladislau Monteiro Baena (Compêndio das Eras da Província do Pará, p.373) encontrou quando procurou os dados disponíveis à época. Estava incumbido de montar o "Mapa Statistico" da Província, mas somente achou dois "Allistamentos pouco especificados das duas Freguesias da Cidade" feitos no ano de 1822:

- Freguesia da Sé: 2474 brancos; 450 indianos, pretos e mestiços, e 2942 escravos;
- Freguesia da Campina: 3069 brancos, 659 indianos, pretos e mestiços, e 2777 escravos.
- Total de moradores: 12471