sábado, 31 de janeiro de 2009

Tinta fresca

Nem precisou terminar o clima onírico construído em torno do Fórum Social Mundial para que a dura realidade da onda de insegurança pública, que se alastra no Pará inteiro, revelasse sua face cruel.
Nas últimas 48 horas várias ocorrências dispersas mostraram que esta área está longe de ser controlada. Fuga em massa de detentos em penitenciária dita de segurança máxima e em seccional urbana abarrotada de presos, furto de mais de 100 armas de fogo de depósito do Instituto Médico Legal, assassinato de capitão da PM na sempre insegura PA-160, entre Parauapebas e Canaã dos Carajás, no sudeste do Estado, além da rotina diária de matanças na periferia da capital, sempre atribuída a acerto de contas entre traficantes, dão a exata dimensão da extensão e da profundidade da crise.
Um abismo tão colossal que marketing algum é capaz de esconder.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O Fórum invisível. Para quem não quer ver

O site Carta Maior, de longe, produz a mais completa cobertura do FSM, que se realiza em Belém até o próximo domingo. A cegueira, voluntária e oportunista, da grande mídia em relação a um evento tão representativo aparece com todas as letras nesta análise do sociólogo Emir Sader.

Cadeira vazia

Carregado de importante simbolismo foi a ausência de convite a Lula para o encontro de presidentes sul-americanos com os militantes da Via Campesina e de outros setores de esquerda durante o Fórum Social Mundial ontem à tarde, em Belém. O ato, realizado no ginásio da Universidade Estadual, reuniu milhares de ativistas e celebrou a unidade de setores sociais que buscam um caminho alternativo para o enfrentamento da crise. Em comum, estes segmentos não estão dispostos a dançar o minueto inspirado pelos estrategistas do Planalto, que recorrem ao discurso ricos versus pobres apenas quando isso lhes é conveniente.
Enquanto as atenções estavam voltadas para o palanque de Chávez, Morales, Correa e Lugo, e a platéia fervia em meio a discursos que colocavam na mesma trincheira militantes do MST e do PSOL, Lula estava recolhido - solitário - a despachos administrativos, gastando as horas para que o seu ato com esses mesmos presidentes fosse iniciado no luxuoso Hangar Centro de Convenções, cercado de todos os cuidados para que somente lá estivessem aqueles que rezam por sua cartilha.
Um sinal de que a era hegemônica do lulismo nos movimentos sociais está chegando ao fim? Talvez, mas existe um largo, acidentado e complexo caminho a percorrer.
O FSM, esse caldeirão efervescente de simbolismos, mostrou mais uma vez que pode despertar energias novas. Novas e grávidas de rebeldias que não podem ser domesticadas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Tostões que causam escândalo

Ampliar em mais 1,3 milhão de famílias o programa de transferência de renda do governo federal - o Bolsa-Família - e estender o acesso à merenda escolar para 7,3 milhões de alunos do ensino médio resultará em um investimento de R$ 871 milhões ao longo do ano. Isso é muito? Depende. Para os do andar de cima isso é um disparate, como se vê na matéria publicada hoje pela Folha de São Paulo (para assinantes). Para o jornalão paulista o Planalto se deixa seduzir pelo populismo e está de olho nas eleições de 2010, buscando manter estrito controle sobre um imenso curral eleitoral representado fundamentalmente pelos pobres do Norte e Nordeste. Óbvio que não diz uma única palavra - nem relaciona os fatos entre si - quando o mesmo governo anuncia que, em 2008, alcançou quase R$ 58 bi a título de superávit primário, aquela fabulosa Bolsa-Banqueiro que religiosamente as multidões famélicas do Brasil transferem para um punhado de alegres credores nacionais e internacionais.

Sob a lente do preconceito

Ainda muito se falará sobre a cobertura que a imprensa paraense faz do Fórum Social Mundial. Inciativas arrojadas, como os cadernos especiais bilíngues, não devem deixar de ser comemoradas. Porém, essa ânsia por transformar um evento de tamanha riqueza, magnitude e pluralidade num palco onde desfilam, com primazia, naturistas, adeptos da liberalização da maconha ou da distribuição em massa do Santo Daime é apostar no preconceito e na desinteligência.
Cortinas de fumaça, essas notícias editorializadas tendem a reduzir o FSM a uma espécie de Woodstock caboclo. Nada mais distante da pujança e da legítima radicalidade que brotam, nestes dias luminosos, das margens do Guamá.

Tropa de Elite

Grandes empresários de Roraima estão por trás de garimpos clandestinos que infestam vastas regiões daquele Estado, inclusive em áreas indígenas, como a Yanomami. A denúncia é da Polícia Federal e foi registrada em matéria da Folha de Boa Vista.
O clima de violência produz vítimas por atacado. Na semana passada, por exemplo, um índio da etnia Yekuana, do tronco Karib, foi assassinado por garimpeiros ilegais. É o rastilho de pólvora de uma tragédia socioambiental que se desenvolve aos olhos de todo mundo.
A elite de Roraima, armada e perigosa como demonstrou nos atos de vandalismo contra a homologação contínua da Raposa Serra, tem mais segredos do que admite. E como são inconfessáveis as trilhas que percorrem para prosseguir em sua insana acumulação de riqueza e poder.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O mundo inteiro na palma da mão

A nona edição do Fórum Social Mundial (FSM), em Belém, forçará que as postagens e a moderação de comentários entrem em compasso de espera.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Gritos do Silêncio

Uma proposta da esquerda israelense para a conquista de uma paz duradoura com o povo palestino. Aqui no Carta Maior.

Homens ao mar

Grandes corporações multinacionais continuam, a cada dia, espalhando péssimas notícias. Empresas da Europa e dos Estados Unidos de vários setores - telefonia, indústria farmacêutica, montadoras de carros e fabricantes de máquinas e equipamentos de construção - anunciaram a demissão de mais de 70 mil trabalhadores em escala global.

O diabo mora nos detalhes

A chacina de cinco jovens por militares da PM paraense na semana passada desvela muito mais do que a conhecida - e tão pouco combatida - rotina de violência que permeia a corporação. Revela, entre outras mazelas, a face encoberta de um fenômeno gravíssimo: o segundo "emprego" de policiais, os bicos que os PMs fazem durante seus dias de folga para complementar o esquálido salário que recebem.
O cabo PM Paulo Sérgio da Cunha, cuja morte deflagrou a sangrenta reação de seus colegas de farda, foi assassinado durante um assalto na periferia de Belém no sábado, 17. Ele estava de folga e as primeiras versões davam conta de que tivera o azar de estar na hora e no lugar errados, exatamente no momento em que assaltantes atacavam uma malharia. Mas com o passar dos dias, emergem outros relatos que atestam que o militar, em verdade, estaria trabalhando como segurança privada, usando armamento da PM, fato que está longe de ser uma raridade. Mais ainda: um suspeito detido poucos dias depois da matança confessou ser o autor dos disparos que matou o militar, revelando ainda que a execução teria sido encomendada por um determinado açougueiro, cuja participação efetiva nos acontecimentos ainda está sendo investigada. Entretanto, pesa contra esse pequeno comerciante a suspeita de ser ele quem alugava armas para a prática de assaltos na região, entre outros possíveis delitos.
Locação de armas para a prática de crimes: eis aí outro filão inexplorado que há muito exige uma resposta do poder público, através de um trabalho de investigação que levante o mapa desses pontos de comércio e desbarate as quadrilhas que se alimentam dessa prática criminosa em estreita conexão com a receptação de objetos roubados e, não raro, com o tráfico de drogas e outras práticas criminosas.
E agora? Será que a polícia agiu como uma horda de criminosos, matando indiscriminadamente, não apenas como forma de praticar vingança privada, mas também possivelmente para destruir indícios e provas que pudessem revelar toda a extensão e profundidade do eventual envolvimento de um de seus membros em procedimentos ilegais?
Com certo atraso, entidades de defesa de direitos humanos se levantaram. O silêncio nos primeiros dias foi perturbador e poderia ser interpretado como condescendência com ritos de execução sumária de suspeitos. Já o governo que se diz comprometido com o combate à violência adotou uma postura burocrática. Prometeu investigar com rigor, mas não adotou nenhuma providência que sinalizasse essa intenção, já que o processo caiu na vala comum de dezenas de outras investigações de rotina que as corregedorias de polícia devem fazer toda vez em que uma ação policial resultar em morte. Como se sabe, ao agir assim essas autoridades estão apostando no esfriamento do caso e, no limite, na consagração da impunidade.
Que este caso escabroso sirva de lição: ou a sociedade e o Estado tomam uma atitude enérgica e corajosa para deter o banditismo presente no seio do aparato policial, pagando os custos inerentes a este enfrentamento, ou estará se instaurando o caldo de cultura da mais indecente complacência com aqueles que se especializaram nesse tipo de extermínio praticado sob a proteção oficial.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A banca que lava mais branco

Dinheiro do narcotráfico inundando o sistema financeiro mundial. Novidade? Nem tanto, mas agora quem põe o dedo na ferida é um órgão da própria ONU, o Unodc (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime).

Viúva eternamente estropiada

Em 2008 os ruralistas continuaram ditando as regras. Em tudo ou quase tudo prevaleceu os interesses desses que não largam o poder por nada nesse mundo. Entra governo, sai governo, e lá estão eles: sempre por cima e em cima da montanha de recursos públicos, combustível maior para que a roda da fortuna dos senhores da terra não pare de girar jamais.
A ONG Repórter Brasil dissecou o processo de renegociação das dívidas do setor agrícola brasileiro no ano passado. Veja aqui.

domingo, 25 de janeiro de 2009

E a motosserra de ouro vai para...

Matéria de O Liberal revela que o posto de maior devastador do Pará tem um dono inconteste: Daniel Dantas, ele mesmo, o homem de bilhões de dólares e de infindáveis artimanhas, sempre com a polícia e a Justiça em seus calcanhares.
A Agropecuária Santa Bárbara, com seus 510 mil hectares e rebanho estimado entre 500 mil e 1 milhão de cabeças de gado, seria a responsável por uma vasta coleção de crimes ambientais flagrados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), resultando em multas que ultrapassam os R$ 12 milhões. Pouco, muito pouco para tamanho e irremediável estrago.

Dialética da palavra que se faz imagem

"Nuvens

A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás da porta. Ignoro onde o vi, quando o vi, e se uma parte do caso remoto não desaguasse noutro posterior, julgá-lo-ia sonho. Talvez nem recorde bem do vaso: é possível que a imagem, brilhante e esguia, permaneça por eu a ter comunicado a pessoas que a confirmaram. Assim, não conservo a lembrança de uma alfaia esquisita, mas a reprodução dela, corroborada por indivíduos que lhe fixaram o conteúdo e a forma. De qualquer modo a aparição deve ter sido real. Inculcaram-me nesse tempo a noção de pitombas - e as pitombas serviram para designar todos os objetos esféricos. Depois me explicaram que a generalização era um erro, e isso me pertubou".

Graciliano Ramos (1892-1953), escritor brasileiro. Infância (p.7)

Um voto pelo futuro

Os bolivianos vão às urnas neste domingo num referendo constitucional. Estará em jogo a não só continuidade da revolução pacífica liderada por Evo Morales. O que os 3,8 milhões de eleitores estarão decidindo é a própria existência do país como construção soberana, plurinacional, democrática e popular.
Como toda transformação verdadeira o processo boliviano não se realiza fora de um contexto de enfrentamento brutal e por vezes sangrento. Mas não entrarão armados com as cores do ódio nas cabines eleitorais hoje. Em cada voto pelo "Si", uma aposta de que o protagonismo popular é a única chave para a abertura de um novo tempo.