quarta-feira, 31 de março de 2010

Don Corleone toma caipirinha

O Brasil teria se transformado no paraíso para as mais poderosas máfias com atuação em nível planetário.
E não se está falando dos chamados "chefões" do tráfico em favelas e bairros periféricos que, vez por outra, são apresentados pela polícia como "barões da droga". Na verdade, são apenas soldados, flagrados de bermuda e chinelo em aberta contradição com o armamento de alta potência que muitas vezes utilizam.
Os capos das organizações criminosas jamais têm seu rosto revelado. Estão acima e, como revela a intrigante reportagem da Carta Capital desta semana, bem distantes do território brasileiro, ao mesmo tempo um enorme mercado consumidor e um pouco vigiado corredor pelo qual transitam volumes cada dia mais espantosos de cocaína e outras comodditties das transnacionais do crime.
É aí que entra a máfia calabresa - a poderosa 'Ndrangheta -, com fortes e antigas raízes no país, e que possui sob seu comando com uma extensa e bilionária rede de tráfico e lavagem de dinheiro.
Fazer vistas grossas a esse fenômeno equivale a deixar aberta a porteira para novas e tormentosas tragédias, como se já não bastasse a existência dos cartéis nacionais da bandidagem de elevado calibre que por aqui proliferam sem cessar.


Mal-aventurados

"Quando quis rezar - e só um pensamento, como um raio e raio, que em mim. Que o senhor sabe? Qual: ...O Diabo na rua, no meio do redemunho..."
Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas (p. 450).



Logo mais, às 8 da manhã, um dos mandantes do assassinato de irmã Dorothy sentará, pela terciera vez, no banco dos réus. Vitamiro Bastos de Moura, vulgo Bida, jurará inocência e verterá lágrimas como se estes cinco anos que separam o trágico 12 de fevereiro de 2005 tivessem o condão de transformar a ele - e a todos que urdirão aquela conspiração covarde - em anjos caídos, conversos sinceros e exemplares. Mas que ninguém se engane: suas mãos ainda trazem a marca indelével do sangue de uma mártir.
Não é apenas uma triste ironia que mais esta sessão especial de Justiça ocorra em plena Páscoa, a Pessah judaica e a travessia sem-fim para os cristãos. Do cativeiro à terra sem males, sonho renovado e inconcluso. Do cativeiro ainda ao cativeiro, melhor e mais precisamente, quando se olha no entorno, funda e profundamente.
Bida, com olhar de vítima, sentará no banco de réus. Enquanto isso, os sicários que ele contratou gozam do "direito" de passar o feriado em liberdade. Os pistoleiros e intermediários - Rayfran Neves, Clodoaldo Batista e Amair da Cunha - apresentam-se, agora, como detentos de "bom comportamento", como se o tempo os estivessem redimindo. Será mesmo?
Logo após sair do presídio, Rayfran disparou: no dia do assassinato, no coração da floresta, em plena Terra do Meio, ele revela ter sido "ameaçado" pela freira de 73 anos. Matou, sim, mas para se defender. Afinal, nas mãos da religiosa, misturado com terra e com seu próprio sangue, restou um exemplar da Bíblia, com o qual, num último e frustrado esforço missionário, ela tentou dissuadir seus executores.
Dorothy era e continua sendo uma séria ameaça. Ameaça , sim, o privilégio dos que transformam a terra - os rios, os bichos, as gentes - em mercadoria. Estupram sem perdão e sem remorso a dádiva mais preciosa que foi legada à espécie humana e, entretanto, borram-se de medo diante de uma anciã de fala mansa, mas de coração vocacionado a jamais transigir diante das múltiplas formas de apreentação do Mal.
Que se faça a Justiça, de uma vez por todas. A sentença a ser imposta a Bida, como a seus comparsas, deve ter um caráter pedagógico.
Ou agimos com a firmeza necessária, ou nossos sertões continuarão a encenar o duelo intermitente onde a força destruidora e corrompedora da morte insiste em se declarar vencedora.

Atualização das 9:30:

Uma manobra da defesa provocou a suspensão do julgamento. Mais uma, por sinal.
Com isso, ganham mais alguns dias e esticam ainda mais a corda da impunidade. Até quando?

terça-feira, 30 de março de 2010

Uma mão lavando a outra

O furo é da Folha de São Paulo. Uma novíssima medida provisória está saindo do forno para beneficiar grandes corporações que exploram, a preço de banana e sem concorrência, dezenas de terminais portuários públicos.
Depois de intenso lobby, tudo leva a crer que os interesses de gigantes como a Petrobras, Braskem e Gargill vão acabar prevalecendo, jogando para o dia de São Nunca a prometida licitação que a Lei dos Portos manda fazer há 17 anos e nada - absolutamente nada - acontece.

Na palma de sua mão, uma guerra sangrenta

Você acaba de ligar seu computador. Nada mais inofensivo.
Os microprocessadores entram em ação. Segundos depois, sua tela está conectada ao mundo. Tudo clean. Tudo soft. Será?
Por trás da mais avançada tecnologia que o homem foi capaz de criar desponta uma tragédia silenciosa. Milhões de seres humanos são mortos todos os anos na África em meio a guerras sem fim.
Saiba como seu moderno equipamento de informática tem tudo a ver com essa carnificina do século XXI.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Sesmaria Internacional

Pare um minuto e reflita: que tal uma área de, pelo menos, 350 mil Km2 em poder de estrangeiros no campo brasileiro? Isto mesmo. É um escândalo superior à extensão da Itália e tudo acontece sob o olhar bovino das autoridades que têm o dever constitucional de zelar por nossa soberania e integridade.
Os dados - ainda incompletos e confusos - dão conta de um crescente avanço de estrangeiros - pessoas físicas e, principalmente, jurídicas - sobre as áreas mais nobres do agronegócio, com destaque para a produção de grãos e de cana-de-açúcar.
O Ministério Público Federal (MPF) já deu o alarme.

As estripulias da nanopolítica

Do balança-balança-mais-não-cai na Seduc, com indisfarçável cheiro de déjà vu, restou a sensação de que a governadora Ana Júlia (PT) saiu do episódio um pouco menor do que entrou. E já virou costume. Ela é mestra em dar demonstrações de falta de poder. Ou, o que dá no mesmo, de como não saber utilizar o poder que tem.
Sem alianças sólidas e confiáveis na área externa, em permanente guerrilha com seus neo-aliados e quase-inimigos do PMDB et caterva, e ainda tendo de administrar a ebulição intermitente da guerra civil entre as hostes petistas, o Palácio dos Despachos vai consolidando a imagem de uma nau sem rumo, a ponto de soçobrar.
Mas que ninguém se iluda: com as eleições transformadas em um imenso e pouco escrupuloso mercado de compra e venda, tudo pode acontecer. Até a reeleição da enfraquecida governadora.

domingo, 28 de março de 2010

Todos diferentes. Todos idênticos.

Marina Silva (PV) postula ser a grande novidade nas eleições de outubro.
Apesar disso, a pré-candidata verde tangencia uma questão básica e essencial para se alçar a um mínimo patamar de disputa: não tem programa próprio e nem quer se diferenciar de seus adversários. Antes, pretende flertar com eles. É por isso que não para de reivindicar o legado dos 16 anos de governo tucano-petista.
Desta contradição - insolúvel e antagônica a qualquer perspectiva que se pretenda verdadeiramente de esquerda ou, quando menos, de oposição com maiúsculas - sobressai sua maior fraqueza: por que optar por uma cópia mal-acabada se há no mercado eleitoral dois produtos originais surgidos do ventre de Wall Street e do insepulto Consenso de Washington?
O jornalista Carlos Tautz não deixa pedra sobre pedra. Confira.

Água de beber

Quando a água vira mercadoria o fim, a hecatombe planetária está mais próxima do que se imagina.
Remando contra a maré do pensamento único, Riccardo Petrella aponta um caminho alternativo. Radical como convém aos que adotam a insubmissão como bandeira.

Quando o crime compensa

Quantos escravocratas modernos estão na cadeia no Brasil?
Nenhum.
O Congresso em Foco desvenda este mistério bem brasileiro.

Estandarte da esperança

Uma índia reclamando sua libertação do cativeiro.
Corria o ano da Graça de 1751 e os índios, há dois séculos e meio, sofriam uma cruel e permanente faxina étnica.
Indignada com o tratamento violento que recebia de seu pretenso senhor, um tal Sebastião Gomes, a índia recorreu aos tribunais. Sua causa foi julgada pela Junta do Pará, que a considerou livre. Uma exceção, portanto.
E dela não se ouviu mais falar, perdendo-se na poeira da história.
Mas, seu nome, ironia e profecia, foi guardado naquelas atas que o tempo não foi capaz e destruir: Esperança, era assim que esta brasileira se chamava, naqueles tempos em que vocalizou a coragem ancestral de seus parentes e de seus irmãos de sangue e de destino.
Onde ela morava?
Ali, atravessando a baía, na localidade que à época se chamava Mortigura (em Tupi, morador, ou natural. Igoara ut Mortigurigoara), que após a emergência das leis pombalinas seria definitivamente conhecida como Vila do Conde, no atual município paraense de Barcarena.
Isso tudo é história e aconteceu quatro anos antes que o rei Dom José I, de Portugal, promulgasse a famosa lei da liberdade "de pessoas, bens, e comércio dos índios do Pará e Maranhão", reconhecendo que "muitos milhões de índios se foram extinguindo, de modo que é pequeno o número de povoações e dos moradores delas, vivendo esses poucos em tão grande miséria" (John Hemming, Fronteira Amazônica, Edusp, 2009, p.29).
Esta lei e tantas outras não vingaram. Letras mortas, desmoralizadas pela força do aço e do fogo de que dispunham os colonos.
O extermínio, como se sabe, prossegue até hoje. Com métodos um tanto mais sutis, mas igualmente letais quanto aqueles utilizados no tempo em que Sebastião José Carvalho e Melo, mais conhecido como marquês de Pombal, mandava e desmandava no pequeno e atrasado Portugal e em suas imensidões ultramarinhas.

Dialética do dia a ser aproveitado

"Basta um dia

Para mim
Basta um dia
Não mais que um dia
Um meio dia
E eu faço desatar
A minha fantasia
Só um
Belo dia
Pois se jura, se esconjura
Se ama e se tortura
Se tritura, se atura e se cura
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só o que eu pedia
Um dia para aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia".

Chico Buarque (Meus Caros Amigos, 1976, Phonogram).

O americano intranquilo

James Cameron é um artista sensível. Seu "Avatar" não é um blockbuster qualquer. Tem conteúdo. Mais ainda: tem lado. O lado dos despossuídos, ultrajados de todos os quadrantes, tempos e espaços.
Portanto, não é nenhuma novidade que ele abrace causas justas, como esta aqui.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Hasta la vista, baby

Saiba quem são (e o que querem) os exterminadores do futuro.
Eles são belicosos na essência, mas usam vestes de pacíficos cordeirinhos.
Saiba como agem esses novos (?) cavaleiros do apocalipse. E aprenda como combatê-los.

Herança Maldita

Em poucos dias terminará o turbulento mandato de Gilmar Mendes à frente do Supremo Tribunal Federal (STF). Já vai tarde, mas deixará suas marcas.
Funcionando como uma espécie de líder informal da oposição de direita, Mendes, cuja indicação à mais importante corte brasileira decorreu unicamente de sua fidelidade canina aos governos tucanos, usou e abusou de seu poder para impor uma pauta de retrocesso e conservadorismo em uma gama enorme de assuntos, com assento na explosiva situação do conflito agrário no Brasil.
Para fechar sua gestão, um último e gravíssimo golpe. Na qualidade de presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ele assinou convênio com a Confederação Nacional de Agricultura (CNA) para a criação de um "Observatório da Insegurança no Campo", para mapear supostas ameaças ao "direito de propriedade" e "mensurar os prejuízos causados pelas invasões de propriedades rurais".
Mais parcialidade e desequilíbrio seria impossível. É a vitória da jagunçagem e da violência institucionalidada.
Espera-se que o ministro Cesar Peluso, conhecido pela ponderação e pela inquestionável bagagem jurídica, determine a imediata correção desse desvio. Ou se arquiva a ideia (de resto, inspirada em discurso marcadamente ideológico), ou se amplia o âmbito do "Observatório", incluindo entidades que representem os pequenos agricultores e os milhões de trabalhadores sem terra que são a outra face de uma guerra civil não-declarada e sem prazo para terminar.

quinta-feira, 25 de março de 2010

O homem que calculava

Fernando Sarney, filho pródigo, sempre enroscado. Agora é o governo suíço, absolutamente insuspeito, que botou a mão na fortuna - U$ 13 mi - que o esperto empresário e lobista maranhense havia escondido por lá.
Não é a primeira vez que o rebento mais famoso do senador José Sarney passa por esse constrangimento. Há poucos meses uma conta secreta na China dava a dimensão de quanto dinheiro - sujo, por certo - circula pelas operosas mãos do esquema montado por essa longeva oligarquia.
O pior é que tudo tende a terminar em pizza. Uma amarga e imoral demonstração de que roubar só só transforma em crime, no Brasil, quando se trata de uma lata de leite em pó para aplacar a fome de uma prole faminta.