quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Cara de um, focinho do outro

Um super-palanque para 2010. Nada menos que Jader Barbalho e Duciomar Costa unidos em torno da causa comum de reeleger Ana Júlia para o governo do Estado. É claro que entre esse acalentado desejo e a sagração das alianças existe uma distância formidável. Tudo pode se desmanchar no ar, já que os caminhos palmilhados nesta seara costumam ser insondáveis.
Um aspecto, porém, permanece nebuloso: adversários de ontem, aliados de ocasião de hoje, têm a cada dia muito mais em comum do que admitem publicamente. Estão se tornando parecidos - nos métodos e nos propósitos - num mimetismo político que faz tábula rasa de antigas fronteiras ideológicas que alguns julgavam intransponíveis.
Ocorre que a travessia do Rubicão ocorreu e já faz bastante tempo. Só os ingênuos e os crédulos de carteirinha fizeram de conta que os fins blindariam os meios, impedindo a inevitável contaminação.

Hoje, cores partidárias e veleidades ideológicas parecem ser meras abstrações. Ou pior: são na verdade simples alegorias - de péssimo gosto, por sinal - para justificar malabarismo em nome de governabilidades unidas pelo fio condutor da gula incontrolável pelo malfeito.

Trincheira boreal

Uma greve que se estende a quatro meses. É contra o desmonte dos direitos trabalhistas realizado pela Vale no Canadá e envolve cerca de 3500 operários das minas da Inco, comprada pela multinacional brasileira em 2006.
Mas, atenção: se a tática de demolir o estado de bem-estar social canadense der mesmo certo, logo algum executivo vai propor que o facão afiado se desloque para fatiar as esquálidas vantagens duramente conquistadas pelo operariado verde-e-amarelo.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ver para crer

Desembarca no Brasil, nos próximos dias, o relator especial da Organização das Nações Unidas para o direito à alimentação, Olivier de Schutter. Crítico mordaz do avanço dos agrocombustíveis sobre o espaço da produção de alimentos, ele vai chegar em meio ao feroz bombardeio pirotécnico desencadeado pelo alto comando dos ruralistas. Sem perder tempo com manobras diversionistas, o relator da ONU vai querer saber o que explica a permanência de níveis indecentes de concentração de terra, onde 15 mil proprietários detém 98 milhões de hectares e, como sempre, ainda acham pouco e querem mais, muito mais.

sábado, 10 de outubro de 2009

O grande salto (para trás)

No ritmo atual, o Brasil precisará de três décadas para atingir o nível de educação que o Chile proporciona a seus jovens. Hoje, segundo o IBGE, 63% dos brasileiros entre 18 e 24 anos não concluíram o ensino médio. Nesta faixa etária, 1,2 milhão deles não possuíam qualquer ocupação, nem estudavam, reféns de uma perigosa ociosidade.
Falar em país do futuro, mantidos esses números trágicos, só pode mesmo ser piada. E do pior e mais indecente mau gosto.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Dialética da revolução dos sentidos

A página do relâmpago elétrico

Abre a folha do livro
Que eu lhe dou para guardar
E desata o nó dos cinco sentidos
Para se soltar
Que nem o som clareia o céu nem é de manhã
E anda debaixo do chão
Mas avoa que nem asa de avião
Pra rolar e viver levando jeito
De seguir rolando
Que nem canção de amor no firmamento
Que alguém pegou no ar
E depois jogou no mar

Pra viver do outro lado da vida
E saber atravessar
Prosseguir viagem numa garrafa
Onde o mar levar
Que é a luz que vai tecer o motor da lenda
Cruzando o céu do sertão
E um cego canta até arrebentar
O sertão vai virar mar
O mar vai virar sertão
Não ter medo de nenhuma careta
Que pretende assustar
Encontrar o coração do planeta
E mandar parar
Pra dar um tempo de prestar atenção nas coisas
Fazer um minuto de paz
Um silêncio que ninguém esquece mais
Que nem ronco do trovão
Que eu lhe dou para guardar

A paixão é que nem cobra de vidro
E também pode quebrar
Faz o jogo e abre a folha do livro
Apresenta o ás
Pra renascer em cada pedaço que ficou
E o grande amor vai juntar
E é coisa que ninguém separa mais
Que nem ronco de trovão
Que eu lhe dou para guardar

Composição: Ronaldo Bastos e Beto Guedes


Guerra nas Estrelas

Pelo menos dois diretores da Vale - nomeados ainda no tempo de FHC - estão sob forte assédio do governo Lula, que maneja os cordeis dos poderosos fundos de pensão - Previ, Funcef e Petros - que junto com o BNDES controlam o maior naco da Valepar, controladora majoritária da megamineradora.
A cabeça de Roger Agnelli, pelo menos por enquanto, parece estar preservada. Por enquanto, ressalve-se.

Embusteiros

Já houve tempo em que ganhar um Nobel representava muito, mas muito mesmo. Mas esse tempo - se é mesmo que existiu - ficou lá atrás, nas poeiras do passado.
Mas, fala sério: premiar o presidente Barack Obama com o Nobel da Paz é uma impostura, para dizer o mínimo.
Os honoráveis membros da Fundação Nobel, responsável pela escolha, perderam a oportunidade de premiar, in memoriam, por exemplo, alguma das centenas de crianças afegãs mortas pelas bombas que o pacífico presidente do império norte-americano manda despejar, o dia todo e todos os dias, sobre as ensanguentadas terras afegãs.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Dos filhos deste solo

A terra brasileira, mãe para uns poucos e madrasta para a enorme maioria, deve um enterro digno para, pelo menos, 140 de seus melhores e mais valorosos filhos. Eles compõem a legião dos desaparecidos políticos tragados pela violência do regime militar (1964-1985).
A impunidade para os agentes do Estado, responsáveis diretos para morte sob tortura da grande maioria destes militantes, é ainda agravada pelo desconhecimento do paradeiro dado pelos órgãos repressores aos corpos de suas vítimas.
A campanha lançada pelo governo federal é bem-vinda, mas insuficiente. Serve para lembrar que existe uma ferida aberta e que, ao mesmo tempo, falta muito para o país se reencontrar como na síntese de um projeto de sociedade efetivamente democrática.
Celebrar a memória dos heróis e mártires é o primeiro passo de uma jornada muito mais ampla e cada vez mais urgente e necessária. O artigo de Sérgio Maggio, no Correio Braziliense de hoje, lança um facho de luz nos sombrios escaninhos de um tempo que precisa ser devassado, justamente para que não se repita jamais.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Na hora da xepa

O último capítulo do troca-troca partidário não poderia ser mais grotesco. A compra e venda de mandatos e de minutos na TV fizeram a festa de uma boa fornada de legendas e de seus (agora) felizes e abastados "proprietários".
Brasília, como sempre, ferveu em madrugadas de intensas e saborosas transações. O consórcio governista - este de hoje como todos os outros que já passaram por lá - se deu bem, muito bem, por sinal. É que a posse da chave do cofre confere a seus detentores os argumentos definitivos para conquistar corações recalcitrantes.
Por aqui, debaixo do caliente Equador, a feirinha instalada lá pelas bandas do Palácio dos Despachos nunca esteve tão agitada. Ao final, as sacolas do neoanajulismo ficaram bem recheadas de vários e diversos produtos, adquiridos sabe-se lá por que preço, mas com prazo de validade há muito ultrapassado.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Aqui se faz. Aqui se paga

O judiciário brasileiro deu um passo importante na defesa do patrimônio socioambiental do país: duas recentes decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sacramentam o entendimento que em processos relativos a crimes contra o meio ambiente o ônus da prova cabe ao acusado. É a chamada inversão do ônus da prova, que deve arrepiar os cabelos daqueles acostumados a apostar tudo na eficiência de seus esquadrões de advogados para protelar para o dia de são nunca o pagamento das multas por crimes ambientais.

domingo, 4 de outubro de 2009

Gracias a la vida

Que toquem todos os tambores.
Que sorriam, emolduradas pelos pampas e pelas florestas sem fim, todas as crianças,
símbolo maior de todas as esperanças.
Que dancem todos os corpos, de todas as cores, com a velocidade de nossos rios e com o vigor eterno de nossas geleiras eternas.
Que se alcem todos os punhos e que o vento dos Andes e do grande vale amazônico faça com que os dedos se abram,
solenes e soberanos,
em um adeus e em um até sempre
para a grande guerreira do canto latino-americano,
Mercedes Sosa,
para sempre viva e vibrante na luta de um povo que jamais deixará de caminhar.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Os filhotes do Duce estão chegando

Os camisas negras, com seu sotaque fascista ineludível, estão desembarcando no Brasil. Os tempos podem ser outros, mas a capa modernosa é incapaz de esconder a monstruosidade dessa facção de extrema-direita, cujo nascimento e disseminação pelas Américas responde aos impulsos - e aos milhões de dólares - originados da Casa Branca.
O Brasil de Fato traça faz uma radiografia deste câncer que, se não for extirpado a tempo, pode se transformar num perigoso entrave ao avanço das lutas sociais em solo brasileiro.

Querubins em festa

No último capítulo, a solução do enigma: a culpa, vejam só, é do mordomo.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Um batente indigno

No Pará, terra sem direitos, uma legião de pequenas vítimas, condenadas à exploração do trabalho infantil: 284 mil entre 5 e 17 anos.
Os dados vergonhosos são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2008, do IBGE.

A mão que balança o berço

De que ventre foram paridos os golpistas de Honduras?
Não é preciso fazer exame de DNA para descobrir a marca indelével dos zoológicos sustentados pela Casa Branca há décadas. Basta ver como começam a fazer efeito as primeiras ameaças efetivas de retaliação comercial estadunidense contra o governo Micheletti, a única linguagem que parece tocar no coração dos que sustentam a ditadura, dentro e fora dos quartéis.