domingo, 3 de abril de 2011

Periscópio - Belém dos bulevares





O olhar precisa submergir.
Décadas e décadas para trás.
1900.
Um pouco mais. Um pouco menos.
Projetada em sépia, a cidade se desvela.
A Belém dos bulevares abre caminho,
domina a visão.
Á direita de quem espia, armazéns que viraram pó.
O porto, signo do progresso que se impunha,
tomou o seu lugar.
À esquerda, imponente, o prédio secular da Alfândega.
Até hoje, ali, resistindo às intempéries e aos
(muitíssimos) maus-tratos.
Em meio às construções, pequenos pontos se movem.
Sobre a linha do bonde, um homem de casaca,
em passo ligeiro.
Quem seria ele?
Um endinheirado do ouro-látex?
Um coronel de barrancos, gados e gentes,
aprisionador de amplidões sem fim na floresta ou
nos campos marajoaras?
Ou, quem sabe, um homem comum, imigrante,
galego ou espanhol, recém desembarcado e ainda
pouco adaptado aos calores da nova terra?
Outras pessoas invadem a paisagem.
Trabalhadores, sim, homens de mãos calejadas,
pés plantados no chão,
sufocados pelo calor e pelo peso da ineludível labuta.
Um deles,quase despencando do enquadramento da foto,
camisa branca de brim que reflete o sol,
para e olha para o trabalho que lhe espera.
Seus olhos estão repletos de luz e,
em meio à algaravia reinante, ele, por alguns
segundos, o tempo exato para o disparo da câmera lhe imortalizar,
é tomado pela certeza de que algo maior,
extraordinário, estava se gestando,
ali mesmo, naquela terra tantas vezes pisada,
agora revestida por pedras impecáveis,
mas que não podia esconder o quanto se alimentou,
por gerações e gerações, dessa enlouquecida
mistura de sangue e de sonhos.


Imagem: Boulevard da República (hoje, Boulevard Castilho França), início do século XX - Relatório de Governo - 1908.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Justiça de costas para o povo - Marinor protesta contra decisão do STF que enterrou Ficha Limpa

O julgamento sobre a Lei da Ficha Limpa no Supremo Tribunal Federal ainda nem havia acabado e a senadora Marinor Brito (PSOL-PA) se antecipou e falou sobre a provável decisão de considerar o texto inconstitucional.
Marinor assumiu uma vaga no Senado depois que Jader Barbalho (PMDB) e Paulo Rocha (PT) - que foram barrados com base na lei. No dia do julgamento do caso de Jader Barbalho no STF, a Corte estava com um membro a menos e o julgamento terminou empatado. Os ministro decidiram então manter a decisão do Tribunal Superior Eleitoral que considerou Jader inelegível. No julgamento de hoje (23), o STF contou com a presença do ministro Luiz Fux, indicado recentemente para a Corte.
“Lamentavelmente, o voto tão esperado do Brasil, de um advogado de carreira, de um juiz, que não foi questionado por sua carreira jurídica quando foi indicado ministro, não conseguiu trazer novidade e acompanhar o raciocínio da sociedade brasileira e das famílias do Brasil. As famílias do Brasil estão clamando por justiça”, disse Marinor sobre o voto do ministro Fux, que considerou a lei inválida para as eleições de 2010.
Indignada, a senadora disse que o ministro foi incoerente com a posição que demonstrou quando passou por sabatina no Senado. “O ministro Fux se contradisse. Aqui ele disse que a Justiça não pode ficar de costas para a intencionalidade da lei. Mas, agora, ele virou as costas para a intencionalidade da lei da Ficha Limpa”, comparou Marinor.
Para a senadora, a decisão do Supremo de considerar a lei inconstitucional mostra um descompasso com a sociedade, porque 70% dos candidatos barrados por terem a ficha suja foram também reprovados nas urnas. A senadora disse ainda que Jader Barbalho se beneficiou da sua concessão pública para ter uma emissora de televisão e fez “autopropaganda” durante o período eleitoral. Para ela, o poder econômico de seu adversário foi decisivo para que ele obtivesse a maior parte dos votos no Pará.
A senadora disse ainda que vai analisar com sua equipe jurídica as possibilidades que terá para brigar pelo cargo na Justiça.

Fonte: Agência Brasil.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Memória de fogo - Cabanos, Cabanos, desvelem-se

"Jamais compreendereis a terrível simplicidade das minhas palavras
porque elas não são palavras: são rios, pássaros, naves...
no rumo de vossas almas bárbaras."

Mário Quintana (Epístola aos novos bárbaros, em Baú de espantos, Record, 1986).




Quem são estes rostos por trás das sombras que se movem, em escrupuloso silêncio, enquanto a Belém de 7 de janeiro de 1835 ainda dorme o sono dos injustos?
A historiografia dos vencedores os chamarão - para todo o sempre - como os malvados. Mas serão efetivamente más as mãos escravas ou semi-escravas que portarão a chama da rebeldia e da desconstrução da ordem iníqua e criminosa que há séculos nos sangrava?
Eram tapuios, índios, filhos, netos, tataranetos dos guerreiros massacrados às margens do rio grande, quando os invasores enfim revelaram que traziam a morte e a desgraça em seus alforjes coloniais.
Eram negros, muitos negros, escravos e sempre escravos, que viram se abrir uma janela pela qual poderiam, enfim, romper as cadeias da ordem escravagista que os dizimava.
Eram brancos, donos de terras e de gentes, cansados do jugo espoliador que daqui tudo sugava sem deixar nada em troca.
Mas, todos eles, com raras exceções, permaneceram anônimos, submetidos à alcunha de malvados, sanguinários, bandidos.
É hora, 176 anos depois, de rasgar o véu de silêncio que os aprisiona.
É hora de gritar seus nomes e de nominar ruas e praças em homenagem à coragem de uma geração trucidada pela ordem do alto e de fora, que tanto tempo depois ainda insiste em tratar os povos da Amazônia como brasileiros de segunda classe.
Que ressoem os tambores!
Que retubem todos os atabaques!
Venham, cabanos!
Desvelem-se, mostrem, finalmente, seus rostos.
Das entranhas dos processos montados para punir os revolucionários, pela pena nada imparcial de Domingos Antônio Raiol (Motins Políticos, 3º volume, p. 1013-1014), uma pequena amostra dos que integraram as fileiras da mais importante revolução popular no Brasil dos Oitocentos:

"(...) os seguintes réus: Eduardo Francisco Nogueira Angelim, presidente intruso e chefe dos rebeldes, Francisco Pedro Vinagre, também presidente intruso e chefe dos rebeldes, Antonio dos Santos Vasques, português e ajudante-d'ordens do governo intruso, Antônio Leocádio, capitão do estado-maior dos rebeldes, André, carapina, preto forro que foi escravo do tenente-coronel Prestes, Bendito de Aquino, preto fôrro, comandante do ponto do hospital de caridade, Benedito José, 1º tenente de artilharia dos rebeldes, Crispim dos Santos, carafuz, 2º tenente de artilharia dos rebeldes, Francisco Fernandes de Macedo, capitão reformado, diretor do arsenal de guerra, Francisco Veado, mulato, sapateiro, Filipe dos Santos, capitão dos rebeldes, Geraldo Nogueira Gavião, tenente-coronel comandante das expedições, Inácio Vieira Lima, secretário do governo intruso, Inácio Furtado, Jerônimo Furtado, João Fernandes Caraipuna, comandante dos rebeldes, José Leocádio, calceta, comandante do hospital, José Agostinho Vinagre, irmão de Francisco Vinagre, Lourenço Ferreira, filho do tambor-mor, comandante do Fortim, Manuel Antônio Nogueira, irmão de Eduardo, chefe de expedições, Manoel Cavalcante, capitão ajudante-d'ordens de Eduardo, Manuel da Silva Paraense, Manoel Pedro dos Anjos, tenente-coronel de Muaná, Manoel Sabino Lopes, coronel comandante, Raimundo de Oliveira Vinagre, chefe de expedições, Tomás Lourenço Fernandes, coronel comandante de armas, Vicente Ferreira da Silva, primo de Eduardo, Antôno Faustino, carafuz, major d'artilharia, Francisco Xavier da S. Paio, comandante do ponto do Chapéu-virado, João Evangelista Paranauaçu, comandante do ponto da Estrada, João Nepomuceno, major comandante, João Manuel Rodrigues Piroca-cana, coronel de artilharia, João Manuel do Espírito-Santo, preto Diamante, José Anastácio da Cruz, capitão comandante, Manuel Garcia, encarregado do troco, Manuel Henriques, tenente-coronel d'artilharia, Albino José Ato Rodrigues, tenente-coronel de cavalaria, Alexandre José Cardoso, tenente de artilharia, Auto Lourenço, comandante do Chapéu-virado, Antônio José de Oliveira Pantoja, comandante do porto das Mercês, Bonifácio José da Costa, tenente-coronel de cavalaria, Bernardino Mundurucu, comandante de uma barca artilhada, Dionísio Ferreira, major comandante do Fortim, Domingos Ramos, comandante do rio Maguari, Estevão da Silva, capitão de artilharia, Esequiel José de França, capitão de artilharia, Félix José Custódio, 2º tenente de artilharia, Francisco Pedro Leal, comandante do ponto da Memória, Jorge de Araújo, alferes de artilharia, Jeremias dos Santos, comandante de Valdecães, João Amorim, comandante do ponto da Olaria, João Antônio de Faria, 2º comandante da guarda municipal, João Salvaterra, capitão de artilharia, João Francisco da Silva, tenente quartel-mestre, João Venâncio, preto ouríves, tenente-ajudante e comandante do ponto da Pedreira, José Antônio Maciel, comandante do Fortim, José Agostinho de Oliveira, major comandante, João Francisco Terra, capitão de artilharia, José Paulino da Silva, comandante do Castelo, José Henriques, comandante do ponto de Valdecães, José Ferreira Pestana, comandante do ponto do Carmo, José Custódio Coutinho, comandante do ponto de Benjamim, José Francisco Ferreira, capitão de artilharia, Isidoro José Pereira, 3º comandante da guarda municipal, Luís Antônio Cordeiro, 2º comandante da mesma, Macário José Teixeira, comandante da estrada da Olaria, Manoel dos Santos, segundo-tenente de artilharia, Manuel Domingos Machado, tenente-coronel comandante da Pedreira, Marcos José, capitão comandante do Fortim, Nicolau José, inspetor comandante do Mosqueiro, Pedro de Sousa, tenente de artilharia, Quintiliano Barbosa, Romão da Graça, Rufino Barbosa, comandante do Castelo, Rufino da Silva Campos Jacarecanga, oficial maior da secretaria de governo, Roberto de Oliveira Pantoja, tenente secretário de artilharia, Elias de tal, mulato fôrro de Genipaúba, Florindo, mulato, Silvério, preto fôrro, sapateiro. (Alguns dêstes presos já se acham mortos, porém não consta em juízo.). O escrivão os lance no rol dos culpados e passe ordem para serem presos os que ainda não estejam; recomende os outros na prisão, e prepare estes autos para subirem ao júri do distrito. Pará, 26 de junho de 1837. Matias José da Silva e Cunha."

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Crer. Para ver.

Veja:
há mais do que essa trama invisível
e perversa a aprisionar o horizonte
nesse édito da injustiça eterna.

Veja:
o homem-mercadoria e o tudo-coisa
não são tão absolutos quanto querem
fazer crer.

Veja:
Aqui e ali, no espaço-silêncio,
algo se move.
Lenta, desajeitada e ferozmente, move-se.

Veja:
Que 2011, grávido de tantas esperanças,
desfralde todas as bandeiras - rotas mas tão atuais -
para afirmar a liberdade humana como alvo e
como destino.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Zero Ground

A política amapaense está em choque. Um choque de muitos e muitos megatons.
Afinal, não é todo dia que um governador no exercício do mandato vai para trás das grades e um ex, candidato favorito ao Senado, vai lhe fazer companhia.
Com parte do andar de cima em pânico, a plateia espera que não fique só por aí.
Que estes ventos de moralização possam invadir o continente, desbaratando em terras paroaras certos esquemas que se imaginam totalmente blindados diante da lei.

domingo, 29 de agosto de 2010

Chamem a Cavalaria

Esses tucanos são mesmo previsíveis.
Quando a situação aperta, a reação é sempre convocar seus "reservistas".
O mais notório, sem dúvida, é o ministro do Supremo, Gilmar Mendes.
Com a candidatura Serra praticamente demolida, eis que Mendes chama a imprensa para meter sua colher na tal quebra de sigilo fiscal de uma penca de cardeias do PSDB. Aliás, figuras notórias e sempre relacionadas com transações tão suspeitas quanto nebulosas.
"Quebrar sigilo é bandidismo político", bradou à Folha de São Paulo, que dá chamada de primeira página neste domingo para a descoberta acaciana do ex-advogado de FHC.
Afinal, eis um tema em que Gilmar Mendes pode ser considerado especialista.

Dialética de um fio que não se quebra

Ecos da Cabanagem

"446 - Ofício de Lourenço Justiniano da Serra Freire, Tenente Comandante de Breves, a Francisco José de Souza Soares Andréa, informando que na expedição ao Marajó, no Rio Muaná, não foi encontrado um grande ponto de rebeldes, nem Quilombo de desertores e pretos fugidos, apenas cabanas destruídas, os mesmos se dispersaram pelos rios em pequenos grupos após tentarem assassinar o seu comandante (Boca). Foram capturados alguns rebeldes e remetendo dois prisioneiros pela escuna Pirajá. Quartel de Breves, 25 de março de 1838. Lourenço Justiniano da Serra Freire. 4p".

Anais do Arquivo Público do Pará, v. 4, t. 1, p. 1-290, 2001.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Feliz Ano Velho

O ano ainda não acabou.
As eleições presidenciais vão se aproximando da hora decisiva, mas com uma crescente possibilidade de que tudo se resolva - a favor do governo, diga-se - já no primeiro turno.
Enquanto o povo mergulha embevecido nas imagens em alta definição de um Brasil fabuloso, recheado de gente feliz e esperançosa, eis que no andar de cima já se planeja o dia seguinte, ou melhor, o ano 1 do provável governo do PT sem a presença oficial de Lula na Presidência.
A crer na matéria de hoje da Folha de São Paulo, o saco de maldades está muito bem fornido.

domingo, 22 de agosto de 2010

Coincidências não existem

A Rádio Tabajara, do jornalista Carlos Mendes, foi empastelada ontem.
A pesada mão do Estado agiu com a truculência de sempre, mas não se tratou de um ato cego.
Que ninguém se engane: há sim relação entre causa e efeito entre as críticas dirigidas pelo jornalista à campanha do PT e a "inspeção" de rotina realizada pela Anatel e Polícia Federal.
Pouco importa se centenas de rádios alternativas têm sido vítimas do mesmo processo de censura institucionalizada.
No caso específico - e isso é fundamental que se lembre - houve uma ação coordenada.
Mais importante: difícil crer que não tenha havido ordem de cima.
A sociedade paraense ganhará muito em saber de quem partiu a ideia de utilizar métodos que trazem a lembrança do açoite sob ordens de redivivos coronéis de barranco.

Escravo do tempo. Ou da falta dele

O Página Crítica entrou em um quase recesso.
A culpa é do tempo. Ou melhor: da extrema falta dele.
Nas próximas semanas, infelizmente, o quadro somente se agravará.
Peço desculpas aos que por aqui passam, de vez em quando, em busca de algo novo.
Nas pequenas frestas que se abrirem, volto ao que o grande e imortal Haroldo Maranhão chamava de "invariável compromisso de todos os dias (...) ginástica diária. Exercícios de
flexão e (no caso dele, bem entendido) de ficção".
No meu, tenho certeza, apenas tentativa de domar e ser domado pelas palavras.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

É meia-noite e tudo bem. Tudo bem?

O capitalismo financeirizado é uma festa. Para poucos, mas sempre uma festa.
Só que não dura para sempre.
O fantasma da crise está sempre por aí, assombrando uns e outros.
Agora, aquela sensação inquietante que sinaliza um novo abalo global para os próximos meses voltou a tirar o sono dos especuladores em Nova York.
Quando tempo será necessário para a bomba-relógio explodir?
Quanto tempo será necessário para que a onda atravesse o Atlântico e venha dar na praia de um Brasil embebedado pela aparente estabilidade econômica?
Quem viver, verá.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Retratos da barbárie

Quantos estupros ainda sofrerá a adolescente bestializada no cárcere de Abaetetuba?

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Infinitas cortinas com palcos atrás

A desfiliação de Almir Gabriel do PSDB, mais um furo da sempre bem informada Rita Soares, é quase uma não-notícia.
Há meses esse desfecho era esperado e, na prática, o ex-governador já havia mudado de mala e cuia para a canoa de Jader e Juvenil.
Então, o que deveria despertar interesse na verborrágica e algo delirante pregação que o agora ex-tucano assume como uma espécie de missão apostólica?
É, justamente, o persistente ataque ao grande eleitor oculto da política brasileira e paraense, a "multinacional da mineração" Vale do Rio Doce e seu "insolente" presidente, Roger Agnelli.
Por que essa denúncia - gravíssima - não é capaz de gerar qualquer comentário na mídia e na blogosfera?
Seria um fato sem importância a tal "intromissão indevida" do monopólio privatizado por sobre a maioria dos partidos e a quase totalidade dos atuais (e pretéritos) governantes dessas terras paroaras?
Esse silêncio parece ir muito além de mera cumplicidade. Antes, revela que o teatro eleitoral está em grande medida maculado por um tipo de nódoa muito difícil de lavar: a submissão aos interesses das poderosas engrenagens do financiamento privado.
E são essas mãos, sempre prepotentes e despudoras, que moldam o discurso e prática dos que se vergaram ao triste papel de vassalos do grande capital.

domingo, 1 de agosto de 2010

Dialética da arte de domar palavras

O aprendiz


Da ponta do arame
a frase
sem (o) equilíbrio
escapa
Tentar o vento
o vulto de uma vela
com o frio alicate
tanto resulta
madeira inerte
ou rocha lisa.

Do côncavo do seio
da curva do arame
partir (ia) o pássaro. Foge
nervo dorido
(asa)

grito,

A imagem branca
dorme na concha
real mas inconsútil
que o arame fere
inútil.

Max Martins (1926-2009). Poeta paraense. H'era (1971) em Poemas reunidos (1952-2001). Belém: Editora da Universidade Federal do Pará/ EDUFPA, 2001, p.318.

Engolidores de elefantes

Nunca houve tantos mecanismos de controle sobre as eleições no Brasil.
Nunca houve tanto abuso do poder econômico - às escâncaras, diga-se - num processo de fraude que deveria desencadear uma ira cívica sem precedentes, mas, contraditoriamente, serve apenas de fermento à apatia e ao desencanto de muitos.
Na raiz de tudo, reina solene, a mãe de todas as maracutaias: o financiamento privado de candidatos e partidos, através do qual mandatos acabam como meros instrumentos de negócios escusos na via dupla onde se encontram a fome e a vontade insaciável de comer.
Mas, que ninguém se esqueça, a roda da história não para de girar.
Em meio a tudo isso, de forma ainda pouco visível, parcelas críticas do eleitorado vão se dando conta de algo preciso ser feito. E feito com o misto de pressa e perseverança dos que vislumbram com clareza o porto de destino.