domingo, 31 de maio de 2009

Poucas velas. Muito choro

Belém desclassificada como sede da Copa de 2014 é um duro golpe na combalida autoestima dos paraenses. Mais: é uma derrota de ampla profundidade e enorme repercussão que se projeta pela próxima década.
A caça aos culpados já começou e com forte estrépito. As causas do infortúnio, sabe-se muito bem, estão fincadas em décadas de abandono e de incúria.
Uns e outros, com as armas de que dispõem, erguem barricadas de defesa e ensaiam manobras ofensivas. Todo mundo de olho em 2010. É a politização oportunista de um revés que, sim, poderia ter sido evitado.
Faltou ação, criatividade, protagonismo, de um lado. De outro, como de costume, pontificou a verborragia rasteira que ressalta, aos gritos e com redobrada histeria, as mazelas sociais de cuja responsabilidade nenhum dos grupos da elite paroara pode se eximir.
Na mesma proporção, sobrou um misto de arrogância com a crença excessiva num suposto prestígio junto ao Planalto, que ao final se demonstrou mera ilusão de ótica.
Verter lágrimas sobre o leite derramado não terá qualquer serventia. Como todo choque coletivo poderá, ao menos, contribuir para revelar o verdadeiro caráter - ou a falta dele - nos muitos cartolas de meia-pataca que ocuparão o picadeiro nos próximos dias.

sábado, 30 de maio de 2009

Diálética dos tempos da esperança órfã

"Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar,
os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
(...)"

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). "A flor e a náusea" (A Rosa do Povo, 1945)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Muito barulho por (quase) nada

A reação histérica dos Estados Unidos e seus aliados diante das movimentações bélicas da Coreia do Norte responde à necessidade de possuir, a cada momento, um demônio oportuno para combater. Kim Jong Il é o Saddam Hussein da vez. Há, porém, uma diferença marcante: o arsenal dos norte-coreanos não é um cenário de papel machê, mesmo que ainda esteja um tanto distante de controlar, até as últimas consequências, a tecnologia da produção de artefatos nucleares.
Muito mais perigoso, para a Ásia e para o mundo inteiro, é o gigantesco complexo militar nuclear do Paquistão, aliado incondicional dos Estados Unidos, sob controle de uma ditadura acossada pela guerrilha de seus ex-aliados do Taliban.
Enquanto a grande mídia se farta de desenhar o armagedon na península da Coreia, desce a cortina de silêncio sobre o seleto clube de proprietários da bomba atômica, muito mais perigosos e imprevisíveis. Ou as ex-repúblicas da Uniâo Soviética, atoladas até o pescoço na corrupção e na teia de crime de suas máfias, não são um risco maior ainda? Isso para não falar de Israel e seus dirigentes da extrema direita, para quem promover um pogrom atômico nunca esteve totalmente fora de cogitação.

Não colou

Uma anistia ampla, geral e irrestrita aos dirigentes do Banco Central e altos dirigentes do Ministèrio da Fazenda desde os tempos de FHC, suspeitos de falcatruas várias e diversas, aprovada no Congresso por iniciativa da bancada tucana, com discreto apoio do PT, morreu no nascedouro. Acabou vetada pelo presidente Lula.
A regra que consagrava a impunidade iria beneficiar os artesãos do escândao do Proer, em 1995, mas também ergueria um escudo à equipe de Henrique Meireles empenhada em salvar, com bilhões das reservas do Tesouro, bancos e empresas metidas em enrascadas devido à crise global.
A medida polêmica foi sorrateiramente enfiada na medida provisória 449 que tratava de conceder vantagens tributárias a pequenos devedores do fisco federal. Com apoio da mão amiga do PMDB, a proposta havia também sido desnaturada através da inclusão de benefícios indevidos para beneficiar grandes devedores. Tudo parecia que está dominado até que mais um veto presidencial suspendeu essa parte da festança com dinheiro público.
O governo acha que já concedeu vantagens suficientes ao capital, o que, de resto, está mais que evidente. O excesso de benevolência estava pegando mal, além de sangrar ainda mais a arrecadação nestes tempos bicudos.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Batata fervente

O pedido de habeas corpus que tenta livrar o ex-deputado Luiz Sefer de uma temporada no Presídio Estadual Metropolitano (PEM 3), percorreu um sinuoso - e pouco explicado - caminho desde a última terça-feira, 26, logo depois de sua prisão no Rio de Janeiro. Duas desembargadoras - Brígida Gonçalves e Vânia Lúcia Silveira - saíram pela tangente, alegando motivos de foro íntimo para não julgar.
Desde ontem, porém, os autos estão conclusos nas mãos do desembargador Raimundo Holanda Reis, de cuja decisão dependerá a sorte imediata do mais ilustre interno do sistema penal paraense.

Atualização das 14h39:

Não deu zebra. Veja aqui como é mesmo quase impossível rico ser hospedado nas dependências da Susipe.



Colhendo tempestade

A pregação fascistóide contra os direitos humanos tem alcançado amplos resultados no Brasil. Quem atesta a tragédia é a Anistia Intermacional.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Yes, nós temos escravos

O que têm em comum Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos; James Wolfensohn, ex-presidente do Banco Mundial; Vinod Khosla, multimilionário indiano fundador da Sun Microsystems e Henri Phillipe Reischtul, ex-presidente da Petrobras durante o governo de seu ex-sogro, Fernando Henrique Cardoso?
Acertou quem respondeu que todos esses ilustres homens de governo e de negócios dividem as quotas da mais famosa multinacional criada para surfar na onda do etanol brasileiro, a Brenco (Brazil Renewable Energy Company, Companhia Brasileira de Energia Renovável, em Português). Mas não disse tudo: eles também são acusados de reproduzir em nosso país as piores práticas laborais, com a utilização de mão-de-obra reduzida à degradante condição de escravos contemporâneos. Utilizam-se, inclusive, de outro ilustre homem de negócios, João Pereira da Silva, vulgo "João Paracatu". Saiba um pouco mais da folha corrida deste delinquente no site Repórter Brasil.

O grande golpe

A bancada ruralista está na ofensiva. Com o carinho que recebe do Planalto, os representantes do latifúndio e do agronegócio quem enterrar, sob sete palmos, os avanços da legislação ambiental brasileira. Escancarar as porteiras da devastação, sem dó nem piedade.

O perigo mora ao lado

Não adianta culpar quem alertou para o enorme risco existente no complexo nuclear de Angra. O material radiativo vazou, mas ninguém precisa entrar em pânico. Segundo a Eletronuclear, está tudo dominado e não houve impacto algum, nem para o meio ambiente, nem para os trabalhadores da usina. Um milagre fabuloso e, evidentemente, inacreditável.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Street Fighter

O campo majoritário do PT é, hoje, um pote cheio de mágoas, prestes a transbordar. Gota a gota, a paciência da maioria do partido foi se exaurindo e, na mesma proporção, o crédito do governo Ana Júlia - e da Democracia Socialista, em particular - virou poeira.
O Repórter Diário de hoje, principal coluna do jornal Diário do Pará, acerta no fundamental, mas derrapa no acessório ai relatar, em primeira mão, a troca de sopapos entre o chefe da Casa Civil, Cláudio Puty, e o secretário de Transportes, Valdir Ganzer. O bafafá ocorreu mesmo, mas não foi ontem à noite, no Palácio dos Despachos, e nem na presença da governadora Ana Júlia.
A cena de vale-tudo ocorreu, segundo uma acreditada fonte com amplo trânsito no PT, há poucos dias numa reunião da executiva estadual com secretários de governo. E as causas do entrevero podem ser explicadas, não necessariamente nesta ordem: 1) a desconfiança de que o governo vai puxar o tapete da candidatura de Paulo Rocha ao Senado em 2010, em função das evidentes sinalizações de que Duciomar Costa, prefeito da capital e eventual postulante de uma vaga no Senado, goza de acessos muito mais largos e profundos que os palacianos ousam admitir; 2) a ultra-centralização da DS na condução dos assuntos de governo, isolando e subestimando as demais correntes internas do PT; 3) a tentativa de colocar o cargo de Ganzer, titular da Setran, na cesta de espaços a serem ofertados na repactuação com os partidos da tal base aliada; e 4) a intempestiva candidatura de Puty à Câmara Federal, fonte permanente de tensões e de disputas intestinas.
Apesar disso tudo, os cardeais do PT apostam na possibilidade de colocar panos quentes e seguir adiante. Não se sabe, entretanto, até quando as margens vão segurar a força das águas do rio de raivas no qual o partido se transformou.

Pode ser a gota d'água?

A aliança entre o PT e o PMDB no Pará está grudada com cuspe. O desenlace parece iminente, mas nada indica que as favas já estejam todas contadas, como afirma Ilmar Franco, no Panorama Político de O Globo, edição de hoje.
Os dois quase ex-aliados, cada dia mais beligerantes, chegam a milímetros do rompimento, e estacam. Tudo indica que ninguém quer pagar o preço de tomar a atitude definitiva, arrumar as trouxa e sair batendo a porta.
Enquanto isso, permanece o suspense.

Ipiranga com São João

Ao que parece, a Al Qaeda passou por aqui. Ou melhor, passou por nossa maior megalópole, São Paulo.
Na matéria exclusiva de Janio de Freitas, na edição de hoje da Folha, um detalhe não deve passar despercebido: agentes do FBI e da agência antiterrorismo dos Estados Unidos estariam agindo em território brasileiro, supostamente em cooperação com a PF. Como se sabe, essa turma de espiões não tem entre suas qualidades o respeito à soberania dos países onde atuam. E o Brasil não chega a ser exemplo de país que se dá respeito.

Bala de ouro

Madrugada. Periferia de Belém. A turba não cansou de espancar os dois jovens. Após condená-los em "julgamento" sumaríssimo, o juri se transmutou em pelotão de fuzilamento. Ali, no meio da rua.
Um dos jovens, de 20 e poucos anos, foi obrigado a se ajoelhar. Humilhado e sangrando recebeu o tiro de misericórdia. A cabeça explodiu com o impacto do projétil. Sangue, muito sangue, empapando o asfalto.
O segundo jovem é salvo por inusitado acaso. Estudara com um dos agressores. Foi sua salvação.
Esta cena não é ficção. Retrata mais uma execução das tantas que se repetem todas as semanas. Marginais que se auto-proclamam "justiceiros" saem enlouquecidos agarrando os primeiros que encontram, para então iniciar a sessão de barbárie. Lichamentos como esse estão virando rotina na mesma medida em que a voragem da violência atinge níveis de completo descontrole.
O que está faltando para que a polícia passe a prender em flagrante os agressores, fazendo com que paguem pelo crime de homicídio qualificado?

segunda-feira, 25 de maio de 2009

As aparências enganam

Fernando Collor, ele mesmo, comandará a tropa de choque lulista contra o PSDB/DEM na CPI da Petrobras, apresentada pelos governistas como uma CPI da "direita". Mas não foi no governo Collor, de tão lamentável memória, que foi gestado o ovo da serpente da privatização da Petrobras, quando todo o setor petroquímico, de vital importância estratégica para o país, foi inapelavelmente entregue ao capital privado?
Tucanos e demos juram pela fé da mucura que não defendem a privatização da Petrobras. Ao contrário, querem a sua completa "estatização", livrando-a dos grupos privados que "aparelharam" sua gestão. Esses "grupos", dizem, indicados por petistas e aliados, estariam praticando a maior rapinagem com dinheiro público. Mas não foi justamente sob o reinado de FHC, em 1998, que foi dado o golpe de misericórdia na Petrobrás, com a aprovação da lei n° 9.478, que quebrou o monopólio estatal do petróleo, abrindo, na prática, vastas áreas do setor para a ganância multinacional?
Petistas de todos os quilates, de dentro e de fora do governo, já vestem, sem o menor pudor, a fantasia conveniente da luta contra a privatização da Petrobras. Ensaiam discursos raivosos, nas tribunas do Senado e da Câmara, mas também agitam bandeiras nas ruas. Os tucanos e demos, afinal, são aqueles que tramaram até mudar o nome da empresa, nos anos 90, para Petrobrax, e agora investem contra o "colosso" da área pública de nossa economia emergente. Mas não foi o governo Lula, numa mistura de pulsilanimidade e cinismo, que não só manteve como ampliou a medida que, adotada ainda pelo PSDB, siginificou na prática a "desestatização" da Petrobras? Isso mesmo: desde que as ações da empresa foram negociadas na bolsa de Nova York que o controle acionário já está nas mãos dos capitalistas privados, principalmente estrangeiros. Os "sócios" privados da Petrobras dominam 68% do total de ações, contra 32% sob controle do Estado brasileiro. Claro, alguém vai lembrar que esses números se referem às ações preferenciais, sem direito a voto. Tanto faz, mesmo se levarmos em conta as ações ordinárias, a participação privada alcança expressivos 44%, cuja maior parte, como era de se esperar, está engordando os ativos de grandes especuladores estrangeiros.
A CUT, a UNE e outros movimentos sociais ensaiam manifestações contra a CPI do Senado. Algumas organizações, como o MST, justificam que marcham em defesa do petróleo que precisa voltar a ser nosso. Objetivamente, esses movimentos se deixam utilizar, com maior ou menor grau de consciência, por uma estratégia diversionista do Planalto. Mas não foi Lula, Dilma e seus ministros que impuseram a vários desses movimentos sociais uma derrota extraordinária ao manter e realizar a toque de caixa os leilões dos lotes para exploração por empresas estrangeiras das reservas do Pré-Sal, um crime inominável contra a soberania nacional?
Diante dos indícios de falcatruas na Petrobras, nada a opor que uma CPI realize uma investigação independente. A questão é que talvez - numa hipótese otimista - o barulho da apuração no Senado resulte na descoberta de alguns punguistas de quinta categoria, se tanto. Enquanto isso, de forma tão impune quanto escandalosa, vai se continuar a praticar os maiores crimes de lesa-pátria de que se tem notícia contra a mais importante empresa brasileira, com a anuência velada de tucanos e petistas, irmãos siameses dessa inglória e imoral operação desmonte.

domingo, 24 de maio de 2009

Soletrando

P-á-t-r-i-a s-o-b-e-r-a-n-a. O grito vem lá dos Andes, mas bem que está fazendo falta por aqui na planície.