quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Não tem para ninguém

Os banqueiros - sempre eles - voltam a ocupar o primeiro lugar no podium. É deles, mais uma vez, o troféu de setor mais lucrativo. Em 2009, ano da grande crise (para os outros), a banca nacional aumentou seus extraordinários lucros em 24% frente aos resultados de 2008.
É evidente que na outra extremidade alguém pagou a conta.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Tempos Modernos

Vejamos um caso exemplar: a venda, por 450 milhões de reais, da Celpa para o Grupo Rede, um dos maiores escândalos da história recente do Pará, está prestes a completar 12 anos. Na época, sob o reinado de Almir Gabriel (PSDB), quase ninguém atentou para o ridículo ágio de apenas 0,1% sobre o preço mínimo e de apenas um consórcio comprador ter se habilitado no "leilão".
Das promessas de melhoria do serviço prestado à população e dos supostos investimentos redentores na economia paraense - quase nada restou. Aliás, a herança não poderia ser mais maldita.
Mas nem todo mundo tem motivos para reclamar. Não, isso não.
Após anos a fio remetendo os lucros obtidos no Pará para cobrir outras operações deficitárias da empresa, os controladores foram tecendo um quadro de virtual insolvência e viram a água bater muito próximo de seus elegantes pescoços. Falir um negócio tão lucrativo assim não estava em seus planos, afinal capitalista brasileiro que se preze nunca abrirá mão de recorrer ao Estado, aquele mesmo que é apontado como perdulário, ineficiente e mastodôntico.
Na hora H, chegou o socorro providencial na forma da aquisição - ou reestatização - de quase metade das ações da companhia pela holding do sistema elétrico brasileiro, a Eletrobrás. Negócio de muitos e muitos milhões. Tudo gerenciado por cima e sob controle estrito do Planalto.
Por que não assumir o controle total e auditar as peripécias do grupo privado?
Simples: tucanos (os autores da primeira privataria) e petistas (executores da operação salvamento) são muito mais parecidos do que ousam admitir. Uns e outros são elementos complementares do mesmo projeto de entrega do patrimônio nacional à sanha do lucro máximo e do risco zero.



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Polícia para quem precisa de polícia

Os dados são da Comissão Pastoral da Terra (CPT): é crescente a criminalização dos conflitos sociais. O número de sem terra presos, entre 2008 e 2009, simplesmente triplicou.
No extremo oposto, grileiros e mandantes de crimes de encomenda continuam não precisando temer apodrecer no fundo de uma cela. Uma ou outra honrosa exceção, como o recente retorno à cadeia de um dos patrocinadores do martírio de Dorothy Stang, apenas serve para lembrar a regra de ferro que se mantém incólume.

Zumbilândia

Na corte do morto-vivo José Roberto Arruda, governador democrata do Distrito Federal, cada hora somente antecipa o fim inevitável.
Tem de tudo: bilhete como garantia de suborno milionário, fitas ainda mais comprometedoras e um sobrinho, secretário-particular do mandatário, flagrado como estafeta para cá e para lá com enormes sacolas de dinheiro.
Enfim, o que falta para alguém ejetar a poltrona de Arruda, jogando-o ao mar sem colete salva-vida?

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Falta alguém no banco dos réus

O vento das palavras varre o Haiti.
Sua história, sonhada e recontada em voz baixa, revela a mão que esbofeteia.
Das entranhas, laceradas, a trilha do aço que não cansa de macerar.
Conhecer as faces encobertas, retirar-lhes as elegantes máscaras e perceber como gotejam, rubras de sangue alheio, os dedos que agora se apresentam como salvadores.
Eduardo Galeano, cidadão do mundo, quer chamar atenção para o escândalo. Antes que tudo seja esmagado pela pesada potência do silêncio imperial.


Criatório de tubarões

Não para de chover na horta das grandes empreiteiras brasileiras. Dinheiro público, crédito subsidiado, novos e mais apetitosos nacos de serviços públicos privatizados e a privatizar. Enfim, um mundo de possibilidades que parece não ter fim.
Por trás dessa alegria toda, a operosa mão do Estado.
Sim, do Estado - sempre aparelhado pelos de cima - e não apenas do governo de plantão, muito embora o lulismo tenha elevado a graus nunca vistos essa simbiótica - e muito suspeita - conjunção de interesses.
Matéria da Folha de São Paulo de hoje mostra como um voraz processo de concentração e monopolização de capital está em marcha. Sob as bençãos e os bilhões do BNDES.
É só a pontinha de um gigantesco novelo, cujos contornos nebulosos parecem não despertar nenhum interesse especial. Reduzir o papel do governo a um simples reforço de caixa eleitoral é não saber da missa a metade.
Pena que o debate político esteja tão limitado e indigente. Fosse outra a situação, quem sabe, estaria aí uma boa pista para se desvelar a força motriz da tragédia nacional.

Dialética da idade sem esperança

"Tenho sido um homem velho desde, talvez, os doze anos.
Minhas lembranças, um tanto esgarçadas, retrocedem a tempo mais distante ainda, captando episódios que estavam a denunciar o velho, as barbas do velho, os humores do velho, contidos num triste menino que pouco sorriu, na idade em que os meninos andam a desferir risos de pássaros, sem, às vezes, nenhum motivo. Bem cedo rejeitei o concurso de amassecas, preferindo desembaraçar-me sem arrimos, ostentando enfática e ingênua suficiência, que fazia burlesca a sofrida criança de três anos, a enfiar suas botas, a remover a roupa, a procurar o banho na hora habitual, a partir o pão, a cuidas das suas miúdas cousas, dispondo-as, cada qual, no seu lugar. Não estou louvando; estou deplorando este menino rígido como um punho cerrado, que nunca pôs a voar um papagaio, nem montou o dorso de uma árvore para colher as suas frutas. Seus sentimentos e ideias eram ideias e pensamentos idosos. E foi sempre, sem realmente o desejar, uma peça dura e estranha, um som ríspido, desalojado entre as crianças, de cuja intimidade se omitia, deliberadamente, para estar só. Nasceu daí o amor carnal pela solidão, a boca somítica de palavras, a imperícia quase orgânica de criar e cativar laços amistosos -os gestos sem doçura de um boneco de mola, a acidez, os olhos álgidos, os súbitos e ferrozes arroubos de silêncio."


Haroldo Maranhâo (1927-2004). "Allegro Ma Non Troppo" em A Estranha Xícara (p.69, Editora Saga, 1968)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Adivinhem quem vem para o jantar?

Ela, sempre ela, com sua indefectível presença, andava um tanto sumida. Pelo menos dos noticiários e da cantilena dos comentaristas econômicos.
De repente, e talvez não tão subitamente assim, eis que a tal crise econômica volta a pipocar.
Desta feita o epicentro do abalo se deu no velho continente, em terras lusitanas, para começo de conversa, porque o contágio parece ser inevitável.
As primeiras ondas já começaram a rebentar nas lucrativas praias da bilionária Bolsa de São Paulo.
Pode ser o (re)começo de um período de incertezas. Ou pode ser apenas um breve soluço. Até que as placas tectônicas do cassino global voltem a se movimentar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Quem é que vai pagar por isso?

Ao que parece, não vale mesmo um vintém furado as tais "condicionantes" com as quais o IBAMA enfeita as licenças ambientais que concede para satisfazer a gula do grande capital.
Só isso explica, por exemplo, que na polêmica e muitíssimo suspeita obra de construção da usina de Jirau, no rio Madeira, em Rondônia, não tenham detectado a existência de índios isolados, agora submetidos ao quase certo e letal contato com as frentes de trabalho da empreiteira Suez, multinacional francesa de péssima fama.
Quem faz a denúncia é Mary Alegretti, antropóloga e ambientalista que abraçou a causa da defesa da Amazônia e de seus povos há várias décadas, desde o tempo em que caminhava por entre os seringais acreanos em companhia de Chico Mendes.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Uma ponte de solidariedade

Além das palavras, atos concretos.
É isso que o povo do Haiti precisa. E tem todo o direito de exigir.
José Saramago aponta o caminho.
Veja como, aqui.

De alhos e bugalhos

Para a grande mídia Hugo Chávez é um Stalin ressuscitado.
A batalha que se trava na Venezuela, opondo setores da plutocracia midiática e o governo legalmente instituído, estaria mais para uma Primavera de Praga do que para as conhecidas (e sempre reincidentes) articulações golpistas latino-americanas.
A repetição é tão intensa que discordar da tese dominante exala naftalina e gera imediato desconforto.
Mas romper esse cerco informativo é uma exigência do momento.
Como separar o joio do trigo?
O jornalista Breno Altman resolveu meter sua colher neste angu de caroço.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sob a sombra do tumbeiro

Rugendas (1802-1858) retratou o ventre medonho de um navio negreiro.
A luz penetra no porão infecto onde seres humanos são destruídos por uma máquina insana. Naquele último círculo do inferno, quase metade da "carga" perecia antes da chegada ao porto. De doenças e de fome. Ou moídos até a morte pela força bruta do açoite.
O Brasil de hoje, dito moderno e globalizado, permanece tratando seus pobres - da cidade, dos campos, das florestas, pouco importa - com o mesmo desprezo com que eram tratados os africanos que atravessaram o Atlântico naqueles barcos da morte, tumbeiros, como passaram à história.
É só isso que pode explicar a forma como o Estado brasileiro - pouco importando se apropriado pelos tucanos ou pelo petismo de Lula e Dilma - continua a impor sua vontade por sobre os direitos das parcelas mais vulneráveis da população brasileira, índios, ribeirinhos e quilombolas, por exemplo.
A licença prévia para a usina de Belo Monte, expedida ontem (1º), é muito mais do que um um atentado contra a vida desses povos amazônidas. É a prova de que, passados cinco séculos, o chicote permanece vivo e atual, talvez apenas deslocado para outras mãos, mas mantendo a mesma abjeta utilidade.

Fado Tropical

Razões não faltam para se abrir, em um seleto círculo de privilegiados, um bom vinho do Porto para embalar uma operação de sucesso.
Não é para menos: a tarifa do ônibus urbano de Belém acaba de ser reajustada numa encenação bem conhecida.

O resultado também é bastante óbvio: reforço no caixa oficial das perdulárias empresas de transporte, já devidamente vitaminado com o recente pacotão fiscal patrocinado pelo prefeito Duciomar Costa (PTB) e por sua prestimosa base de apoio na Câmara.

Sobre o outro caixa - paralelo até a alma - convém não especular. Pelo menos por enquanto.

Em carne viva

O mapa da destruição da Amazônia está sobreposto às trilhas dos grandes projetos que avançam sob a bandeira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e da Iniciativa de Integração de Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). Causa e efeito, a destruição não é efeito colateral. É o fio condutor da apropriação do território para fins de acumulação, em escala ainda mais ampliada, pelos oligopólios do capital sem fronteiras.
O Atlas de Pressões e Ameaças às Terras Indígenas na Amazônia Brasileira, excelente trabalho dos pesquisadores de Instituto Socioambiental (ISA), deixa tudo às claras, sem retoques.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ground Zero

Uma pesada cortina de silêncio desabou sobre os escombros do pequeno Haiti.
Era previsível, sem deixar de ser absolutamente cruel.
Outros fatos - ou meros factóides - atraem as lentes ávidas pela notícia instantânea e superficial.
Poucos permanecem por lá, respirando o ar carregado de dor, doença, fome e morte.
Leandro Colon, correspondente do Estadão, é um deles.
Suas matérias revelam o lado humano da tragédia. Focalizam o dia seguinte do que é apenas extensão de um sofrimento que parece não ter fim.
O caso da enfermeira salva por soldados brasileiros, após três dias do terremoto, tudo registrado por uma equipe da Rede Globo, permanece como um emblema de como o mundo pode continuar lavando as mãos na água podre do descaso e da infâmia.