sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Dia da caça

Até a bancada ruralista, acostumada a mandar e desmandar no Congresso Nacional, tem seus percalços de vez em quando. Foi o que aconteceu neste mês quando a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados derrubou, por voto da maioria, projeto de Valdir Colatto (PMDB-SC), que pretendia simplesmente tornar sem efeito o Decreto nº 4.887/2003. Poderia ser uma proposta qualquer se este decreto presidencial não fosse o instrumento que tem permitido nos últimos anos o mais amplo trabalho de identificação e titulação das terras ocupadas por comunidades remanescentes de quilombos em todo o país. Ora, revogar o decreto seria tornar letra morta o art.68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) da Constituição Federal, que consagrou o direito dos quilombolas às suas terras tradicionais, hoje objeto de enorme interesse de grandes grupos interessados na exploração vegetal e mineral, além da insaciável sede do grande capital por incorporar novas áreas para as frentes de expansão da pecuária e o dos agrocombustíveis.
Diante da derrota parcial, os ruralistas anunciam recurso ao plenário. Aguarde-se, para os próximos meses, os novos rounds a serem disputados contando com o declarado apoio da grande mídia e, por baixo dos panos, por movimentos tíbios do governo Lula que até providenciou recentemente, após um simulacro de consulta às entidades do movimento negro, uma revisão administrativa que introduz mais entraves burocráticos à continuidade do reconhecimento legal de extensas áreas quilombolas. Como se percebe, a abolição por essas plagas parece estar fadada a não se completar nunca.

Pará no pelourinho

Mais trabalhadores escravos libertados no Pará. Desta feita, foram 51 retirados do trabalho forçado em carvoarias e numa fazenda na área rural de dos municípios de Abel Figueiredo e de Rondon, sudeste paraense. Com mais esta operação do Grupo Móvel do Ministério do Trabalho e Emprego, o Pará continua liderando o ranking do maior número de autuações por este crime. De 1995 para setembro deste ano, segundo a última estatística divulgada pela Frente Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, o Pará foi palco do resgate de 10.774 trabalhadores escravizados, nada menos que 34% do total do país.

Para muitos, lamparina

O governo federal não cumprirá as metas do programa Luz para Todos, menina dos olhos do presidente Lula e apontado como um dos principais cabos eleitorais entre a população pobre do interior do país. Quase 200 mil famílias, cujas ligações deveriam ser concluídas neste ano, serão jogadas para o incerto 2009. Assim, a meta de atingir 2 milhões de domicílios até o final de 2008 foi para o espaço, devendo aguardar melhores ventos, sobretudo aqueles que ganham forças às vésperas das eleições.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A sangue frio

O pequeno Isac Gabriel Barbosa, de um ano e sete meses, morreu ontem no Pronto Socorro do Umarizal, no centro de Belém, depois de quase 24 horas de agonia. A família denuncia que faltou atendimento adequado e que seu quadro de saúde foi agravado pela ausência da médica especialista, que faltou ao plantão, e até de equipamentos elementares para a retirada de um caroço de açaí alojado na garganda da criança desde a manhã da terça-feira (29).
Alguém tem dúvida de que estamos diante de um homicídio?
Alguém tem alguma esperança de que os culpados - de todos os níveis e patentes - sairão mais uma vez impunes?

Matemática imperial

O placar foi incontestável: 185 a 3. Isso mesmo, apenas três votos a favor da manutenção do bloqueio a Cuba. Contra todo o restante da comunidade internacional, Estados Unidos, Israel e Palau, pequena nação insular da Micronésia, no Pacífico, isolados, mas arrogantes, desmoralizaram, pela 17a vez consecutiva, a Assembléia Geral das Nações Unidas, que condena, ano após ano, o cerco econômico, diplomático e militar à ilha de Fidel desde os idos de 1962.

Beatitude mais que suspeita

As palavras do prefeito reeleito de Belém, Duciomar Costa (PTB), em peça publicitária paga - sabe-se lá por quem - nos jornais de ontem, podem revelar tendências até agora pouco visíveis em sua controvertida personalidade. Vejamos apenas a abertura: "Senhor meu Deus, às vezes não sei por onde começar, não sei se te confesso em primeiro lugar, (sic) as minhas faltas ou te peço para desoprimir as minhas dúvidas". A frase, certamente, estaria mais apropriada se tivesse partido de um emérito integrante da ultra-ortodoxa Opus Dei, em plena sessão de mortificação com o uso do cilício, e não de um cidadão de tantos e tão públicos pecados.
De duas, uma: ou Duciomar tem um senso de humor mais refinado do que se supunha, ou ele possui planos para ingressar - quem sabe já em seu próximo mandato - no lucrativo mercado da fé, disputando palmo a palmo com outros empreendedores de sucesso. O bispo Edir Macedo, do alto de seu império multinacional, precisa se acautelar, porque vem aí um concorrente de peso.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Caixa de Pandora

Guardem este nome: Bruno Kaelin. Ele é ex-executivo da gigante francesa Alstom e esteve preso na Suíça de agosto até o início deste mês, acusado de ter coordenado a distribuição de milionárias propinas a políticos do Brasil e da Venezuela, entre 2000 e 2003. Suas eventuais revelações à Justiça poderão provocar grandes estragos do outro lado do oceano.
Entre as muitas denúncias denúncias envolvendo a Alstom, uma deve ser fonte de muita dor de cabeça a tucanos de altíssimo coturno. Trata-se de US$ 6,8 milhões em pagamentos ilegais a dirigentes do governo paulista em troca de favorecimento em compras do metrô e do setor elétrico, num escândalo que permanece, como brasa sob cinzas, à espera de uma investigação profunda que desvele mais esta bem nutrida rede de corrupção e lavagem de dinheiro.

No horizonte, arma-se o Tsunami

Os dados são da Organização Internacional do Trabalho (OIT): o aprofundamento da crise global pode aumentar, até 2009, em 20 milhões o número de desempregados no mundo, superando pela primeira vez a marca de 200 milhões de seres humanos submetidos à barbárie da falta de trabalho.
Os setores mais afetados, na primeira onda do maremoto que emite sinais devastadores no centro e na periferia do capitalismo, serão justamente os de maior vigor no último período: construção civil, indústria automobilística, setor imobiliário, finanças e serviços.

Adoradores de Talião

O corpo destroçado de um homem, suspeito de tentativa de estupro, ficou exposto por horas, amarrado num poste nos confins de uma esquecida rua periférica de Marituba, região metropolitana de Belém. Festa macabra para os sangrentos cadernos policiais que circularam ontem (28), com farta e indecorosa cobertura fotográfica e texto editado na forma de uma dissimulada apologia ao crime.
Mais um linchamento, mais um sinal de que se perdeu, completa e totalmente, o controle sobre a segurança pública e que o salve-se quem puder, com toda sua carga de irracionalidade, chegou para ficar.

Fica a pergunta incômoda: após as eleições e sem o influxo milionário da ofensiva midiática paga com recursos públicos, que tal a Secretaria de Segurança da governadora Ana Julia apresentar suas estatísticas – as verdadeiras, por favor – sobre os supostos resultados da propalada operação Força pela Paz?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Miragem eleitoral

Segundo fontes ligadas ao Sindicato dos Servidores Públicos de Belém (Sisbel), chega a R$ 900 milhões a fatura das perdas salariais que o prefeito Duciomar prometeu, a partir de janeiro, começar a pagar ao funcionalismo, o que equivale a quase um orçamento anual da Prefeitura (R$ 1,2 bi). Logo se vê que para ganhar o voto de eleitores incautos vale tudo, até prometer o impossível.

Cara e coroa

Um só governo, dois discursos completamente antagônicos. Enquanto a dupla Tarso Genro (Justiça) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) defende a punição dos criminosos da ditadura – a tortura não é e nem nunca foi crime político, portanto não é passível de anistia -, Jefferson Guedes (Advocacia Geral da União) dá parecer favorável aos militares reformados Carlos Brilhante Ustra e Audir Santos Maciel, ex-comandantes do DOI-Codi paulista, acusados pela Justiça Federal pelo desaparecimento, morte e tortura de, pelo menos, 64 pessoas, na década de 1970. Resultado: lá está, mais uma vez, o Brasil, a caminho do banco dos réus na Corte Interamericana de Direitos Humanos, com sede em San José, Costa Rica.

Acredite se quiser

A promessa de José Priante se tornar, de agora em diante, o "líder da oposição" ao segundo mandato de Duciomar Costa (PTB), em Belém, parece ser muito boa para ser verdade. O histórico de adesismo do PMDB aos governos de plantão - quaisquer que sejam eles, aliás - não serve de estímulo ao repentino ímpeto oposicionista. Recorde-se que foi o mesmo PMDB que apoiou Duciomar desde o 2o turno de 2004 e, após a vitória, ocupou a estratégica área de educação. É por estas e outras que as críticas às vésperas das eleições, por mais acerbas que possam ser, demonstram ter tão pouca eficácia.

Ouvido de especulador

Lula pede, pede, e nada dos banqueiros liberarem os bilhões desbloqueados dos compulsórios para o crédito. Alegam que é melhor – para eles, é lógico – construir um “muro de liquidez”, investindo em títulos do governo, atraídos pelas estratosféricas taxas de juros. Que ninguém se espante: a oratória presidencial continuará a cair no vazio, porque a única racionalidade que o sistema financeiro conhece é aquela que defende seus próprios e particularistas interesses.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Enquanto isso, em Gotham City

Sob flashes e holofotes, a multidão de repórteres aguardava ansiosa uma declaração oficial do grande vencedor. Alheio à algaravia, ele mantinha impassível sua contumaz cara de paisagem, divagando em torno de pensamentos tortuosos. Enquanto fixava o olhar em um ponto perdido no horizonte, segurava com força o cabo de madrepérola de seu guarda-chuva preferido. Passado e presente num turbilhão de emoções anfíbias. O gozo do triunfo em mistura acre com remotos sentimentos de culpa, recalcados em um canto escuro de sua mente prodigiosa. Melhor não pensar demais. A hora é de panis et circenses.
Antes de iniciar sua locução à turba embevecida, pensou pela enésima vez sobre o quanto pode ser mentiroso o axioma de que o crime não compensa.

sábado, 25 de outubro de 2008

Dialética da palavra desencontrada

"104 - A vida, como comentário de outra coisa que não alcançamos, e que está aí ao alcance do salto que não demos.
A vida, um balé sobre um tema histórico, uma história sobre um fato vivido, um fato vivido sobre um fato real.
A vida, fotografia do número, possessão nas trevas (mulher, monstro?), a vida, proxeneta da morte, esplêndido baralho, tarô de claves esquecidas que umas mãos reumáticas rebaixam a uma triste paciência solitária (-10)".

Julio Cortázar (1914-1984), O Jogo da Amarelinha (6a edição, 1999, página 104).