segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Elementar, meu caro Watson

O leitor do Página Crítica já sabia. Desde fevereiro de 2008, já sabia que da Belém Ambiental exalava um fedor muito mais ácido do que aquele derivado do chorume que segue pingando de seus carros coletores da limpeza urbana.
No centro da trama, a simpática São Luiz do Curu, no interior cearense. Como se sabe, esta cidadezinha é inocente. Só ela, porque os personagens envolvidos na armação - todos eles - são culpados de variados e diversos crimes. Mas seguem impunes, como sempre.
A novidade, algo reiterativa aliás, foi o destaque dado ao assunto pelo Diário do Pará, em ampla manchete no domingo passado.
Afinal, 2010 com toda sua carga de fortes e intensas emoções chegou mesmo para ficar.

sábado, 29 de agosto de 2009

O homem que virou suco

Deraldo, poeta, retirante, é caçado impiedosamente na selva de pedra por um crime que não cometera.
Francenildo, caseiro, testemunha ocular da esbórnia, vítima da arrogância do poder, acaba esmagado, sem apelação, no altar solene de uma corte que resolveu, mais uma vez, consagrar a impunidade que serve de exemplo.
Deraldo, o repentista, sofre horrores, mas sua existência está limitada à película e sua pulsação resulta da velocidade em que os frames se deslocam sob a genial direção de João Batista Andrade, no clássico do cinema nacional do já distante 1980.
Francenildo, o caseiro, é de carne e osso, e seu olhar de desamparo diante do placar vergonhoso - 5 votos contra 4 - é a mais acabada tradução do abismo que separa a sociedade orfã e as necrosadas estruturas do Estado que permanece aprisionado à lógica dos prepotentes de ontem e de hoje.
O STF cravou mais um prego na cruz que simboliza sua desmoralização. O voto de seu presidente, ministro Gilmar Mendes, decisivo para livrar a pele de Antônio Palocci, desconheceu a elementar questão que vincula o delito a quem dele se beneficiou. Afinal, era o ex-Czar da economia lulista que precisava destruir a reputação do caseiro e, assim, desmontar seu depoimento sobre a tal mansão onde lobistas, altas autoridades da República e moças de má-fama se entregavam aos prazeres mundanos, numa simbiose alucinada entre poder, sexo e dinheiro.
Restou, como sempre, a sensação de que o crime quase sempre compensa. Pelo menos para alguns afortunados.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Nunca é tarde demais

Em meio a um cenário político algo desértico, sempre é bom saber que ainda existem aqueles que perseveram ao lado das boas causas. A punição exemplar dos algozes que investaram os porões da ditadura por mais de duas décadas é uma dessas. E a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não tem fugido do bom (e indispensável) combate.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Da arte de fazer besteira

O governo Lula é mesmo incorrigível. Quando uma crise política (mais ou menos artificial, diga-se) em torno do suposto e nebuloso encontro entre a ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, e a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) já estava em seus penúltimos estertores, eis que alguém - com certeza muito bem situado na pirâmide de comando - resolve mandar decapitar, sem dó nem piedade, uma meia dúzia de cargos comissionados que guardavam lealdade à ex-secretária. Pronto, foi como apagar fogo com querosene: instalou-se a Terceira Guerra Mundial nos corredores do fisco, com dezenas de pedidos de exoneração e altíssimos graus de intrigas e detonações para todos os gostos.
Como nas divertidas fitas em branco e preto, onde os patetas - eram três, hilários e inesquecíveis - sempre encontravam um jeito de dar cabeçadas ou enfiar o dedo nos olhos uns dos outros, a equipe ministerial de Lula não consegue passar uma semana sem fornecer munição para seus adversários no Congresso, que andavam meio mofinos depois que a CPI da Petrobrás naufragou em águas tão escuras quanto profundas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Justiça tardia e pela metade

Quanto vale mesmo a vida de um sem terra?
Pouco, quase nada, apregoa a lógica do andar de cima.
No país do latifúndio e de seus executivos do agronegócio as lições devem ser sempre exemplares: enfrentar com destemor as cercas da injustiça e da prepotência pode custar a vida.
E as vidas ceifadas - estraçalhadas pelas balas assassinas e pelos golpes de arma branca de uma tropa de celerados - devem ser condenadas ao esquecimento, sob sete palmos, por todos os séculos dos séculos.
Este enredo, tantas vezes repetido, sofreu uma fissura ontem, 25, quando a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STF), em Brasília, colocou, por decisão unânime, o ponto final na longa e indecente perlenga jurídica que há mais de seis anos tem conseguido impedir o cumprimento da sentença que condenou os dois comandantes da PM diretamente envolvidos com o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido naquele sombrio 17 de abril de 1996.
Assim, tão logo a decisão seja publicada no Diário da Justiça, o coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria Pereira de Oliveira deverão ser recolhidos à prisão, onde cumprirão, respectivamente, 228 e 158 anos.
Além deles mais ninguém foi condenado. Nenhum outro militar, das dezenas que participaram ativamente da chacina.
Mas, sobretudo, nenhuma das autoridades governamentais que foram, em última instância, autoras intelectuais do desfecho sangrento: Almir Gabriel, governador; Paulo Sette Câmara, secretário de Segurança; e Coronel Fabiano Lopes, comandante da PM.
O vazio neste banco de réus permanece sendo um escárnio e uma afronta. Até quando?

Real e de viés

Vários dias fora do Pará, com irregular acesso à internet, não deixa de produzir certo estranhamento na chegada. É que a realidade- nua, crua, brutal - recepciona como uma bofetada. Chacinas ao atacado, com os corpos fazendo uma longa fila nos baldios das periferias, anunciam que a guerra civil do narcotráfico veio para ficar; as cadeias - enxovias do século XXI - explodem em fugas e na degradação cotidiana, sétimo círculo do inferno; a capital - sangrada até a última gota - expele, dia a dia, suas tragédias em todas as áreas, sem governo, mas espertamente transformada em balcão de negócios escusos; em meio a tudo isso, a grande política - enorme em termos das cifras que maneja e tão nanica pela dimensão ética dos personagens envolvidos - segue seu banquete tropical sobre a grande mesa onde são negociados - comprados e vendidos - mandatos, votos e consciências, estas, por óbvio, pálidas expressões do que teriam sido algum dia.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Se não agora, quando?

O governo Lula, sob pressão da jornada de lutas do MST, assumiu o compromisso de atualizar, nos próximos 15 dias, os índices de produtividade do campo, que estão congelados desde 1975. Sem essa medida, que vem sendo protelada anos a fio, é impossível desapropriar para fins de reforma agrária latifúndios improdutivos no Nordeste, Sudeste e Sul do país, principalmente.
A reviravolta na posição do governo teria como causa uma ameaça iminente: a bancada ruralista está prestes a aprovar no Congresso um decreto legislativo retirando do Executivo a prerrogativa de alterar, pela via administrativa e por meio de portaria interministerial, esses índices. Ou seja, é agora ou nunca.
Diante da feroz reação dos ruralistas, que arreganharam os dentes em protesto contra a medida, será preciso aguardar o último ato. Lula, mais uma vez, estará diante da encruzilhada: honrar a dignidade de seu cargo ou se render, como tem feito reiteradas vezes, à pressão espúria dos senhores da eterna casa grande que governa o Brasil por mais de 500 anos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Via Ápia no Planalto Central

De Roma a Cápua eram 300 quilômetros. Pela Via Ápia, nos cinzentos tempos da escravidão na antiguidade, cruzes sem-fim eram espalhadas em toda sua extensão. Crucificados, lá apodreceram milhares de escravos. Entre eles, Spartacus e seus valentes seguidores.
Como se sabe, Roma caiu e levou junto com ela as instituições que eram tidas como eternas. O Senado, dos patrícios com suas vestes impolutas (só elas, é claro), também virou pó quando a revolução dos escravos e dos demais povos levianamente chamados de bárbaros colocou abaixo a ordem estabelecida.
Frei Betto lembra de Roma e do célebre discurso que Marco Túlio Cícero fez diante das malfeitorias de outro senador, Lúcio Sérgio Catilina, há mais de 2000 anos. Seu alvo, porém, está bem mais próximo do que se imagina. E os crucificados de hoje podem ser contados aos milhões, vítimas da esperança impiedosamente fraudada.

Linha de comando

Os bate-paus que empastelaram a sessão da Câmara sobre a privatização dos serviços de água e esgoto na capital, com direito a cadeira voando no plenário, executaram com destreza um plano organizado nos mais altos escalões do governo Duciomar. A truculência, portanto, não foi fortuita, nem deve ser entendida como um acidente de percurso. Acima de tudo revela a facilidade com que a base de apoio da prefeitura, em todos os níveis, transita com enorme desenvoltura entre os escaninhos da política e as variadas práticas delinquenciais.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Rinha de meias-verdades e mentiras inteiras

As duas principais redes de TV do país - Globo e Record - há vários dias chafurdam num atoleiro de acusações mútuas. Detonado pela denúncia do Ministério Público contra os principais líderes da igreja Universal, o bate-boca vai ganhando novos contornos a cada dia, mesmo que a base do escândalo seja matéria velha de mais de uma década.
Como é de costume, os telejornais absolutamente editorializados erram quando se defendem e acertam nos ataques aos adversários.
Por trás dos factóides, a guerra pela liderança do bilionário mercado publicitário brasileiro.
Para o jornalista Antônio Brasil, doutor em comunicação e colaborador do Observatório da Imprensa, trata-se daquelas disputas onde não se pode escolher um lado. Como dizem os argentinos, "Que percan los dos!".

Sob as asas do terror

O governo militar brasileiro (1964-1985) participou ativamente da repressão aos movimentos e governos socialistas no Cone Sul, sobretudo nas articulações golpistas que redudaram na derrubada violenta do presidente Salvador Allende, no fatídico 11 de setembro de 1973, e da ampla caçada aos militantes de esquerda nos anos seguintes na esteira da chamada Operação Condor. E parte dessa história vergonhosa começa a vir à luz com a liberação de documentos oficiais da Casa Branca, como comprova a ata do encontro entre o ditador Médice e o presidente Nixon, na Casa Branca, em dezembro de 1971.
O Brasil, onde o sigilo eterno continua a ser imposto a uma enorme gama de documentos, é duplamente devedor. Primeiro, de desculpas formais ao povo chileno em função da criminosa intromissão de agentes do governo da época em aberta violação da soberania e auto-determinação daquele país. Segundo, ao seu próprio povo que possui o direito de conhecer cada detalhe sórdido das ações de terrorismo de Estado que se prolongaram por longos 21 anos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O crime por trás das grades

Se faltava apenas a gota d'água para decretar a falência do sistema prisional no Pará, agora não falta mais. O escandaloso episódio de uma adolescente de apenas 14 anos que permaneceu mais de 30 horas em "visita íntima" a seu namorado, um detento condenado por latrocínio (roubo seguido de morte), numa cela de um presídio estadual nas cercanias de Belém, sem que os agentes e policiais tenham percebido, revela um nível de descontrole, incompetência e conivência com práticas delituosas como poucas vezes se tem notícia.
Além do suposto namorado, a adolescente ficou horas em companhia de mais dois detentos. É provável que tenha sido vítima de violência sexual.

A idade da menina também é alvo de controvérsia. Ela própria relatou ter 16 anos, o que foi desmentido pela família em entrevista à equipe do Conselho Tutelar. Ela tem apenas 14 anos.
O Presídio Estadual Metropolitano, em Marituba, ainda é tido como de "segurança máxima". Por favor, é preciso ter um mínimo de decência. Lá, pelo que se depreende deste episódio, não se controla coisa alguma. É a lei da selva, pura e simplesmente.

domingo, 16 de agosto de 2009

E agora José?

Apartamentos de luxo pagos por uma empreiteira muy amiga, eis o "Fiat Elba" de Sarney. Resta saber se a operação abafa em pleno andamento vai segurar mais essa.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Cheque sem fundo

Vai haver choro e ranger de dentes. O poderoso (e oneroso) lobby que forçou a aprovação do crédito-prêmio do IPI pelo Senado e pela Câmara de Deputados, por meio de contrabando em uma medida provisória, naufragou na praia. Ou melhor, morreu nas mãos do ministro Ricardo Lewandowski, que acaba de sepultar a manobra dos espertalhões em decisão definitiva do plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), livrando os cofres da União de uma conta que poderia ultrapassar os R$ 250 bi.
E pensar que já tinha muita gente gastando por conta, imaginando que suas campanhas em 2010 já estavam devidamente forradas com as verdinhas de sempre.

Cabeça de dinossauro

O imperialismo estadunidense nunca esteve mais vivo. Alguém duvida? As 865 bases militares em 40 países não são apenas herança dos tempos da finada Guerra Fria. Elas sobreviveram ao fim da ex-URSS para demonstrar que o mundo caiu no abismo da unipolaridade mais perversa. E, também, mostram que os pretensos donos do mundo não estão mesmo para brincadeiras.