quarta-feira, 30 de junho de 2010

De joelhos

Agora é para valer.
O diretório estadual do PT bateu o martelo, no final da manhã de hoje, 30, por amplíssima maioria: os cinco vereadores do partido em Belém estão obrigados a votar a favor do projeto da privatização do serviço de águas do município, a nebulosa Parceria Público Privada (PPP) que se tornou uma obsessão do prefeito Duciomar e de seu PTB.
Resta saber qual atitude tomará o vereador Otávio Pinheiro e seus companheiros de bancada que têm recusado dizer amém à imposição da cúpula partidária.

Que andam combinando no breu das tocas

O Ministério Público Federal (MPF) lançou o alerta: se o Congresso aprovar o relatório do neoagronegocista Aldo Rebelo (PCdoB-SP) ferindo de morte o Código Florestal as consequências serão devastadoras. E não se trata de pura retórica. As porteiras estarão escancaradas para um novo e mais violento ciclo de agressão socioambiental, amplificado e sob a cobertura de uma legislação tornada permissiva com o crime.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O que está ruim sempre pode piorar

O PT está disposto a cortar na própria carne para quitar a fatura do acordo (re)eleitoral fechado com o PTB de Duciomar Costa. Cortar literalmente, diga-se.
Diante da rebeldia de pelo menos um integrante da bancada municipal que não admite a desmoralização de se ver obrigado a apoiar o projeto de privatização dos serviços de água e esgoto da capital, passou-se a sinalizar a concreta possibilidade de uma solução dramática. Exige-se que a executiva do Diretório de Belém, controlada em sua maioria por setores adversários da DS, tendência da governadora Ana Júlia, se reúna em caráter emergencial nesta manhã de quarta-feira, 30, e aprove o fechamento de questão sobre o tema. Tudo isso como forma de enquadrar estatutariamente o parlamentar insubmisso.
Caso insista na posição - aliás, posição histórica do PT e, imaginava-se, também do governo - o vereador Otávio Pinheiro pode ser expulso da legenda.
O clima na militância e em parte da direção do PT nunca esteve tão carregado.
Para alguns petistas históricos, que preferem o anonimato, o acordo com Duciomar ultrapassou todas as fronteiras. E pior: a fatura mais amarga está sendo transferida para a conta do partido, que passará à opinião pública um enorme recibo de ser parte de uma negociação nebulosa e marcada por fortes indícios de ser contrária ao interesse público.

O céu não é o limite

Até pouco tempo atrás seria uma sandice colocar nas mãos de grupos privados o desenvolvimento e operação de um satélite de uso militar.
Muito menos seria tida como séria uma proposta que dividisse responsabilidades e recursos com uma empresa de capital aberto, formalmente nacional, como é o caso do grupo Oi, controlado pela oligarquia dos Jereissati. De capital aberto, com ações negociadas na bolsa, ninguém pode efetivamente afirmar que lá entre suas múltiplas alianças societárias não estejam presentes tentáculos de grupos estrangeiros, sabe-se lá de que bandeira.
Mas o governo Lula parece não ver qualquer problema nesta aliança. Aliás, o novo satélite estaria entre uma das muitas condicionantes da aquisição da Brasil Telecon pela Oi, negócio bilionário realizado sob o calor do Planalto.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Assalto ao trem pagador

O último vagão a se atrelar ao reluzente comboio da candidatura de Ana Júlia ao Governo do Estado, trazendo a bordo o PTB de Duciomar Costa, é um caso típico de degradação da política paraense.
Os termos pecuniários do acordo, vazados pela imprensa, revelam uma operação milionária - só da dívida do ICMS sequestrado pelos tucanos durante a gestão de Edmilson Rodrigues (hoje no PSOL), vai a R$ 180 milhões -, mas, evidentemente, tem muito mais.
Já não se faz questão de proteger o público dos detalhes sórdidos. Cargos e orçamentos são abertamente loteados, numa sem-cerimônia que revela apenas a certeza de que, resguardado o quinhão dos diligentes e bem relacionados advogados, tudo vai acabar bem. Para os espertalhões de sempre, é claro.

Jatene diz não ser empregado da Vale

Rompendo o silêncio de meses, o ex-governador Simão Jatene e candidato do PSDB ao governo do Estado declarou à jornalista Rita Soares, do Blog da Repórter, que não é empregado da Vale, desmentindo a acusação, várias vezes repetida, pelo ainda tucano Almir Gabriel.
Fica o registro, enquanto aguarda-se a réplica vociferante de Gabriel em seu estilo de homem-bomba instalado em pleno ninho dos defensores de Serra no Pará.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A grande patroa

A opinião pública paraense está sob anestesia geral.
Nada, absolutamente nada, consegue abalar a sensação de catatonia reinante.
Vejamos este exemplo:
O ex-governador Almir Gabriel (PSDB) voltou a denunciar que seu ex-aliado, Simão Jatene, após sair do governo em 2006, aderiu de mala e cuia à poderosa mineradora Vale.
E não se tratou de adesão ideológica, essa, com certeza mais antiga e evidente.
Jatene teria passado a integrar a folha de pagamento da mega-empresa na confortável posição de consultor.
Consultor, certamente, muito bem pago.
É curioso que nenhum órgão de imprensa se preocupe em apurar esta notícia.
Será mesmo verdadeira?
Por que não se pergunta diretamente a Jatene?
Por que não se pergunta diretamente à Vale?
Como pessoa pública e, mais ainda, como candidato a governador, Jatene tem obrigação de esclarecer o assunto.
Em sendo verdadeira a informação, por que ele não dá publicidade ao suposto contrato, explicitando qual o objeto do trabalho e os valores recebidos?
O silêncio diante de uma acusação tão grave é quase uma confissão de culpa, uma demonstração de como a política paraense penetrou fundo no abismo da ética de conveniência.

domingo, 20 de junho de 2010

A vida (sempre) é bela

Arrancar humor do horror.
Desvelar a poesia nas coisas mais comezinhas.
Isso é possível?
Sim, é possível, basta cruzar com a genialidade de um Roberto Benigni e seu extraordinário A vida é bela (1997).
Esta aí uma dica para iniciar bem um domingo dedicado a repor energias e preparar o espírito para as batalhas que se avizinham.

sábado, 19 de junho de 2010

Cubo Mágico

Há quem acredite em lobisomem e em mula sem cabeça.
Há, também, os que se apegam a uma longa lista de crendices e superstições.
E, é verdade, são muitos os que têm certeza absoluta que a usina de Belo Monte será - se não for detida pela resistência indígena e popular - uma obra tocada pela chamada iniciativa privada.
Afinal, houve um leilão e sagrou-se vencedor um consórcio de empreiteiros e investidores privados em aliança com fundos de pensão e estatais do setor elétrico.
Mas é justamente aí que a porca torce o rabo.
O governo, direta ou indiretamente, não age como sócio menor do empreendimento.
Muito ao contrário, são os agentes públicos que dão todas as cartas, manipulando a partir de critérios pouco transparentes a modelagem desse negócio de R$ 30 bilhões.
Um detalhe para apimentar o assunto: a escolha de fornecedores, a entrada e saída de sócios, a incorporação dessa ou daquela empreiteira estaria sob o comando de altos dirigentes do governo federal, que agem escondidos trás do biombo de um pretenso consórcio privado.
Cabe, nessa altura do campeonato, lançar uma campanha em busca da desaparecida - e há muito desmoralizada - lei de licitações.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Ana e os lobos

Você pode ser derrotado.
Os inimigos são sempre impiedosos. Passam por cima, abrem feridas nas costas dos vencidos.
De toda forma, após a batalha, mesmo com o corpo sangrando, você pode sentir o gosto de pelo menos ter lutado.
Mas, há outros caminhos.
Sim, há outros e tortuosos caminhos.
Você pode, simplesmente, mudar de lado.
Passar de mala e cuia para a tropa agressora. Trocar de bandeira, virar a casaca.
Aparentemente, agindo dessa maneira, atinge-se o alvo, aprisiona-se a vitória tão esperada.
Pouco importa se o preço seja atirar no lixo décadas de luta, reduzidas a moeda de troca no submundo de uma política que parece desconhecer princípios.
A declaração da governadora Ana Júlia (PT) registrando indignação contra a campanha Carne Legal, movida pelos corajosos membros do Ministério Público Federal (MPF), é de escandalizar.
Para a governadora, falando ontem (17) a uma plateia de ruralistas, o Pará possui um tal "desenvolvimento sustentável" e a carne produzida em nosso território "tem qualidade e respeita o meio ambiente".
Como não é razoável atribuir uma manifestação como essa a simples ignorância, resta apenas uma outra e lamentável hipótese a considerar. Qual seja: a governadora resolveu se alinhar ao lado mais retrógrado e acintosamente anti-popular dos que não conseguem esconder nas digitais a nódoa da enorme responsabilidade pelo desmatamento, pelo trabalho escravo e pela grilagem de terras públicas.
Está na hora - se já não passou o tempo - de dar um basta.
Quem se habilita?


Tanto mar, tanto mar.

José Saramago partiu.
Enquanto dormia, partiu.
Quais teriam sido seus últimos sonhos, enquanto a morte - impiedosa e certeira - preparava seu golpe derradeiro?
Terá sonhado com um mundo livre dos grilhões de toda a maldade?
Terá sonhado com um mundo sem qualquer tipo de cerca e de muro a impedir a completa liberdade humana?
Terá, enfim, sentido o gosto de ter lutado - sem jamais perder a esperança - a boa e justa luta dos que tecem, por caminhos tão diversos, a complexa teia da revolução verdadeira?
Em meio à voragem de mares enlouquecidos, Saramago ainda está lá, firme, íntegro e amoroso a apontar o caminho.
Sua jangada, de pedra, não se deixa naufragar.
A favor dela sopram os ventos da história.
Quem de nós terá a coragem de assumir, com espírito renovado, o timão para prosseguir na eterna viagem em busca da outra margem?



quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ao povo, as migalhas

E Lula não decepcionou.
Alguém imaginava que ele iria vetar os 7,7% para os aposentados em pleno ano eleitoral?
Trata-se de migalhas, nada além disso.
O debate acalorado ficou reduzido entre 6,14%, como queria a equipe econômica do governo, e os 7,7% como acabou definindo a maioria dos deputados e senadores, muitos dos quais integrantes convictos da base lulista, mas que não estavam dispostos a marchar para o sacrifício em nome da ortodoxia financeira.
Se a tesoura presidencial tivesse sido acionada, os parlamentares tenderiam a retornar com o reajuste, amplificando o desgaste às vésperas da eleição.
Esse foi o enredo verdadeiro.
O resto obedeceu a um plano para entregar alguns anéis baratos para preservar as jóias da coroa.
Enquanto a mídia se engasgava com esse mosquito, passava goela abaixo o veto naquilo que efetivamente interessava: manter intocado o sacrossanto fator previdenciário, essa garfada extraordinária nos direitos dos trabalhadores brasileiros.
Por trás da cortina de fumaça, Lula ainda pode pousar de "pai dos pobres".
Afinal, o "custo" do reajuste seria de apenas R$ 1,6 bi neste ano. Uma bagatela para quem, por exemplo, não se ruboriza em torrar, em 2009, algo como R$ 147 bi somente de prejuízo do Tesouro em decorrência da política de juros - os maiores do mundo - que o Brasil insiste em praticar para o regalo de um punhado de gulosos especuladores globais.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Sob a névoa da guerra

Em quase uma década de invasão, os Estados Unidos e seus aliados já deixaram em solo afegão mais de 1800 soldados mortos.
As vítimas entre a população civil podem ser contadas em dezenas de milhares.
A ocupação militar aliada já se estende por um período superior ao que foi necessário para empurrar para fora daquelas montanhas e desfiladeiros as estropiadas tropas do império soviético em sua fase de quase esclerose.
Apesar de todos os bilhões investidos, esta guerra é um fracasso sob todos os ângulos.
Mas, então, por que ela se prolonga indefinidamente e com esse crescente e imoral custo humano?
Por que não se detém essa guerra que de tão brutal se parece cada vez mais com uma chacina sem sentido?
Mas o sentido existe e agora veio à luz: no Afeganistão, de povo tão pobre e massacrado, repousam enormes jazidas minerais de ferro, cobre, cobalto, nióbio, ouro e lítio, estimadas, por baixo, em US$ 1 trilhão.
É pela posse desse butim extraordinário e não por qualquer outra razão que se alegue, o sangue vai continuar a ser derramado.

domingo, 13 de junho de 2010

Dialética do homem em seu labirinto

"Escancarar as pálpebras e espelhos
recompor a visão
nascer de novo
trazer a mesma face vacilante
da mesma e antiga noite insatisfeita
bem quisera não mais sentir agora
a solidão
o peso dessas horas
de amargo tédio
para sempre cheias
(...)".


Ruy Barata (1920-1990), poeta paraense. Antilogia. Belém: RGB Editora, Secult, 2000, p. 54.


Uma ponte longe demais

Uma greve de fome inusitada.
Petistas históricos se insurgem contra a mão pesada de Lula e da maioria do diretório nacional que acabaram por impor ao PT maranhanse a submissão ao clã Sarney.
Domingos Dutra, deputado federal, e Manoel da Conceição, legendário líder camponês e um dos fundadores do partido, entraram em jejum como forma extrema de protesto.
A rebeldia não terá, infelizmente, maior eco nas fileiras partidárias.
Os grevistas ficarão isolados no gesto de resistência em nome de um programa e de uma bandeira que há muito já perderam o viço.
E a razão é simples: a luta interna no PT por posições mais à esquerda não possui qualquer possibilidade de êxito.
Na melhor das hipóteses essas demonstrações esporádicas de descontentamento servem para revelar a face de um partido transformado em gendarme da ordem ditada de cima para baixo.