quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Efeito Ofélia

O delegado geral de Polícia Civil do Pará, Raimundo Benassully Neto, é uma pessoa que só abre a boca quando tem certeza.

Há quase dois anos, em plena Comissão de Direitos Humanos do Senado, ele teve o desplante de insinuar uma suposta "debilidade mental" da adolescente que havia sido brutalizada, por intermináveis 20 dias, por dezenas de detentos numa delegacia no município de Abaetetuba. Diante da imediata e bombástica repercussão da, digamos assim, incontinência verbal e intelectual do delegado, restou a ele apenas o caminho da entrega do cargo, antes que o escândalo assumisse proporções incontroláveis.

O mundo deu suas costumeiras voltas, e um belo dia o delegado Benassully é reconduzido ao seu antigo posto. Como policial, não há dúvida, que ele tem se mostrado um exímio porta-voz do governo Ana Júlia, talvez um tanto desastrado, mas, de toda forma, demonstrando uma sinceridade enternecedora.

É por isso que não deve causar estranheza a performance do delegado geral neste último - e quase fatídico - incidente envolvendo centenas de trabalhadores sem terra, na muito emblemática Curva do S, em Eldorado dos Carajás. Por pouco, mas por muito pouco, não ocorria mais um massacre e a responsabilidade direta seria creditada a ele e mais acima para quem teve a brilhante ideia de designá-lo para a missão de desbloquear - ao que tudo indica "a qualquer custo" - a rodovia PA-150. Esse "a qualquer custo", que ninguém esqueça, esteve na gênese da carnificina de 17 de abril de 1996. O tempo passa, os personagens se alternam, mas a grosseria e o despreparo parecem se impregnar em poderosas cadeiras de determinados salões palacianos.

A tomar por verdadeiros os argumentos esgrimidos por Benassully em resposta à indignada nota da CPT de Marabá, temos um cenário de "guerra contra o terror", uma espécie de estrada para Kandahar às margens do rio Tocantins. O advogado da CPT, José Batista Afonso, é pintado como um tipo interessado em provocar uma "nova tragédia na curva do S" e para tanto capaz de utilizar crianças como "escudos humanos" e os demais trabalhadores como "bucha de canhão". Faltou dizer que a CPT se transformou numa célula da Al Qaeda.

Antes que seja tarde é preciso que apareça alguém capaz de determinar que o prestimoso delegado abandone, o mais rápido possível, esse esquisito papel de bombeiro que tenta apagar as chamas do conflito despejando gasolina.

As pernas curtas da mentira

Uma manchete nunca é inocente. Vejam esta aqui na primeira página de O Liberal de hoje: "Belo Monte para. E seis estados ficam no escuro.". Muito bem. Quer dizer que a paralisação do licenciamento de Belo Monte, decidida ontem (10) pela Justiça Federal em Altamira deu (ou pode dar) causa a um apagão nacional. O conectivo "e" entre as duas frases induz a um erro cavalar. Ou melhor: relaciona dois fatos que não possuem qualquer conexão entre si. De fato, joga-se, sutilmente, mais um grão de areia na construção de uma falácia, que serve de verniz ideológico para justificar um dos maiores ataques contra a socio-biodiversidade amazônica.
Para os incautos, anote-se: no projeto atual de Belo Monte não há previsão para que a energia a ser gerada (?) após o estupro da Volta Grande do Xingu seja interligada ao sistema nacional. Esses linhões sequer foram orçados, mas já se sabe que, se um dia vierem a ser construídos, terão um custo astronômico. A pouca energia firme, produzida durante os meses de cheia do rio, irá diretamente abastecer, em sua grande parte, as plantas do complexo do alumínio, para a alegria da Vale, Alcoa et caterva.
Quanto ao apagão de ontem todo mundo é livre para abraçar qualquer uma das teorias que começam a circular. Desde a simples falha técnica em Itaipu - a mais provável - até o mirabolante ciber-terrorismo, como alertou nestes dias um comunicado da Casa Branca.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Contra todos os muros

Enquanto os donos do poder se deleitavam no convescote alusivo ao 20º aniversário do muro de Berlin, na Palestina um oportuno e corajoso protesto chamava a atenção mundial para um dos mais indecentes escândalos do atual século: o muro de mais de 700 quilômetros que Israel constrói em pleno território palestino ocupado para consolidar sua odiosa política colonial.

Coke is it!

O lado Coca-Cola da vida... que nenhuma propaganda teria a coragem de mostrar. Toda vez que tomar um gole de Coca-Cola no Brasil você estará dando, mesmo que involuntariamente, uma mãozinha no processo de devastação da Amazônia. Saiba porque, aqui.

Piromaníacos

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) coloca a boca no trombone: o governo petista de Ana Júlia, no Pará, brinca perigosamente com o fogo. No afã de se mostrar confiável aos setores mais retrógrados, que cobram o incremento da repressão às mobilizações de sem terra, repete-se a mesma sandice que marcou, para sempre, a biografia de Almir Gabriel, naquele trágico 17 de abril de 1996.
A história, que ninguém duvide, pode se repetir numa voragem ainda mais ampliada de sangue, pólvora e tragédia. Ainda mais quando a truculência toma o lugar do bom senso.

Choro e ranger de dentes

Um duro golpe, uma derrota de enormes proporções. A turma do prefeito Duciomar ainda deve estar atordoada, zonza, sem saber o que dizer quando voltar para casa. Afinal, ver seu projeto da super-privataria naufragar assim, sem a menor cerimônia, deve ter sido muito doloroso. Ainda mais por placar tão elástico: 18 contra 12 votos, e algumas abstenções envergonhadas.
Com a votação surpreendente realizada na manhã de ontem (9), a tentativa de privatizar os serviços de água e esgoto - além de uma enorme gama de outras competências municipais - parece ter soçobrado definitivamente. Definitivamente?
Aguarde-se o que vem por aí.
Novas marmotas, velhas manobras palacianas. Tudo pode acontecer.
Perder uma bolada às vésperas do Natal, quando a festança já estava preparada, com o champanhe geladinho apenas esperando para ser saboreado, azeda o humor de qualquer um.
O fracasso, como se sabe, não costuma ser um bom conselheiro.

domingo, 8 de novembro de 2009

Um zoom na devastação

Quase de 90% de toda madeira extraída no Pará tem origem ilegal. A conclusão é de um recente estudo, baseado em fotos de satélite, produzido por pesquisadores do Imazon (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia).
A estimativa oficial era de que 10% da produção madeireira seria ilegal. Uma falha gigantesca, que põe a nu a completa falta de controle do Estado diante dessa atividade econômica predatória.

Raposas em ação

Quando o governo Lula entregou a Funasa e seus bilhões para que os cartolas do PMDB cuidassem não poderia crer em milagres. Deste encontro, entre a oportunidade e a vontade de comer, não poderia dar em outra coisa senão na mais deslavada corrupção.
O Estadão de hoje investiga as relações perigosas de Guaracy Aguiar, irmão do presidente do TCU, pilhado em a boca na botija à frente da Funasa no Ceará. É só a pontinha do novelo, um aperitivo na farra que parece não ter fim.

sábado, 7 de novembro de 2009

O que está ruim pode sempre piorar

Que tal uma anistia ampla e irrestrita para quem desmatou a reserva legal e destruiu áreas de preservação permanente até 2006? Um absurdo? Para a bancada ruralista na Câmara Federal isso não é só justo como desejável. Os deputados do latifúndio e do agronegócio trabalham pela aprovação dessa medida às vésperas do fim do último adiamento - agora em dezembro - de mais um prazo para que as multas contra os devastadores seja finalmente cobrada.
O governo Lula, refém voluntário dessa matilha, assiste tudo de camorote.
Se o golpe der certo - o que até agora parece não tão provavel assim - os operadores do presidente Lula sempre podem colocar a culpa nos setores atrasados do campo brasileiro, que, não tão estranhamente assim, estão quase todos aboletados em partidos da base de apoio governista.
Em todo caso, quando dezembro chegar, na undécima hora, pode surgir um decreto salvador, concedendo um novo e precário prazo. Tudo em nome da "governabilidade", palavrinha mágica para justificar os mais odiosos embustes.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A velha face do terror

Depois de alguns anos em aparente submersão, reaparece à luz do dia a tristemente famosa União Democrática Ruralista (UDR). E vem falando grosso, ameaçando processar o governo do Pará pela suposta não realização de despejos de áreas ocupadas por famílias sem terra.
Um certo Luiz Antonio Nabhan Garcia, grande fazendeiro no interior paulista e presidente da entidade, toma as dores do banqueiro Daniel Dantas e de sua mega-grilagem de 510 mil hectares encravada nas vastidões do sul e sudeste paraense.
Nada mais óbvio: a Agropecuária Santa Bárbara e seu exército de mercenários armados até os dentes bebe na fonte contamidada da UDR, que há décadas se especializou em tratar os conflitos agrários na ponta do fuzil.
Por sua parte, o MST denuncia que nos últimos meses 18 trabalhadores foram baleados por homens da Santa Bárbara. O rastro de sangue e os sinais de explosão social estão aí para quem tiver olhos para ver.
O resto, como se sabe, faz parte do insensato jogo dos que que brincam com o fogo da tragédia iminente.

Um mar que está sempre para peixe

Sai um acusado de compra de votos, entra um acusado de, pelo menos, 200 delitos, com destaque para a sonegação fiscal.
A folha corrida do novo senador por Rondônia, Acir Gurgacz, do PDT, é de fazer inveja.
Assim é o Senado brasileiro, com o seu vasto e diversificado cardume de políticos-tubarões.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Crime de Estado

Decisão exemplar de juízes italianos condenou duas dezenas de ex-agentes da CIA pelo crime de sequestro e tortura contra um cidadão egípcio, arrancado do solo italiano em 2003 e levado a um centro de tortura em seu país.
Os réus foram julgados à revelia e a relação dos culpados apresenta uma evidente lacuna: lá deveriam figurar, entre outros, o ex-todo poderoso George W. Bush e seu fiel consorte, Sílvio Berlusconi, mandantes da atrocidade.

No princípio

Diante do vazio cósmico, luz e treva eram irmãs no abismo sem-fim.
Bing-Bang.
Gênesis de tudo: a criação do crime (quase) perfeito.
Pouco a pouco, a Justiça - lerda e quase sempre cega - vai desvelando o mega-esquema de corrupção e de levagem de dinheiro que os tucanos mineiros inventaram ainda em 1998 e depois lançaram a franquia no mercado para que outros, igualmente metidos a espertos, desenvolvessem uma versão turbinada da máquina de comprar políticos de baixa extração (e preço inversamente proporcional).

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A presença que fica

Há exatos 40 anos tombava Carlos Marighella. No final daquela tarde de 4 de novembro de 1969, no elegante bairro paulistano dos Jardins, na outrora tranquila alameda Casa Branca, a tocaia estava à espreita. Dezenas de agentes policiais aguardavam apenas que sua presa, o homem mais procurado do Brasil, inimigo público número um da ditadura militar, fosse engolfado pela rede assassina.
Ainda assim, com a evidente superioridade bélica da equipe do brutal delegado Fleury, os policiais se desesperaram, acionando suas armas em uma fuzilaria indiscriminada que resultou na morte de uma integrante da guarnição, alvejada por seus próprios companheiros. Marighella não teve chance de qualquer reação. O fusca em que se encontrava foi crivado por incontáveis disparos, trucidado ali em plena via pública, sem a menor cerimônia.
O corpo dele foi exposto como o troféu. Ao aniquilá-lo, o regime pretendia transmitir a impressão de que com ele morria também toda a resistência. Menos de uma década depois, quando o povo voltou a retomar às ruas e praças em estado de rebeldia, foi suficiente para demonstrar o quando estavam enganados todos os que concorreram - material ou intelectualmente - para que aquele bárbaro crime fosse perpetrado.
Hoje, a memória de Carlos Marighella segue sendo celebrada. Seu testemunho de vida, sua firmeza de princípios e seu radical compromisso com os mais pobres continua sendo exemplo para as novas gerações.
Já seus algozes, todos eles, vivos ou mortos, pouco importa, não representam absolutamente nada. Quando muito merecem escassas linhas nos relatos daqueles anos de chumbo, afirmando apenas o quão abjetos e deploráveis são os métodos dos que abraçam a medonha opção do fascismo.

Das entranhas da mãe África

Lá, no outro lado do Atlântico, a Vale também vai provocando um rastro de destruição socioambiental. As vítimas são milhares de famílias camponesas da região de Moatize, em Moçambique, onde se localiza uma das maiores províncias carboníferas do mundo.
Se nada for feito, em breve o carvão mineral moçambicano poderá mover as turbinas da termelétrica de 600 MW que a Vale pretende construir em Barcarena, no nordeste do Pará. Seus lucros serão catapultados pelo aumento da produção de seu complexo industrial do alumínio, ampliando a ponte transoceânica que transfere milhões de toneladas de minério e de produtos de baixo valor agregado para manter sempre em movimento as fornalhas do neocapitalismo chinês, principalmente.
Já a elevadíssima conta dos prejuízos permanecerá onde sempre esteve: pendurada para todo mundo ver nos escaninhos de um governo paraense que, há muito, perdeu completamente a capacidade de se por de pé.