domingo, 7 de março de 2010

Arca do tesouro

Quem quer viajar no tempo?
Sim, então aperte o cinto e dê a partida.
Basta um clique e, num passe de mágica, o leitor-viajante estará na Belém dos Oitocentos.
Mais precisamente, no ano da graça de 1884, e poderá percorrer as ruas e largos de uma cidade que sofria (e se deleitava) com as ferozes dores do crescimento.
Era o início do opulento Ciclo da Borracha, que em poucas décadas iria trazer riqueza (para poucos, é claro), mas muitas transformações no desenho urbano e social desta Paris dos trópicos.
São 12 litografias, verdadeiras joias raras, que concebidas pelo gênio de J. Léon Righini, foram resgatadas pela pertinácia de José Mindlin, que resolveu compartilhar com o povo paraense parte de sua incalculável riqueza. Livros, livros à mão cheia!
Não se intimide com as preciosidades do "Panorama do Pará em Doze Visitas". As janelas do tempo estão abertas, aproveite sem medo e esqueça do cenário atual, com tantas feridas da incúria e do maltrato.
Abra os olhos e veja. Veja como era (e continua sendo) belo o Largo do Palácio, amplo e campestre, vários anos antes que ali se construisse uma elegante praça.
Que seus olhos se percam nos contornos do novo e imponente Theatro de Nossa Senhora da Paz, em suas feições originalíssimas, pontificando a área da Campina, ainda sem qualquer urbanização.
Faça um passeio, ao cair da tarde, na formosa Estrada de São José (atual avenida 16 de novembro), com sua arborização típica da qual quase nada restou. Mas, cuidado: não deixe de olhar com atenção os personagens de carne, osso e tinta que passam por este caminho. A mulher escrava com sua vestimenta colorida trazendo pela mão uma criança, uma menina talvez, cujo futuro (se é que teve algum) esteve sempre marcado pela marca da abjeta escravidão. Terá se tornada uma operária e descoberto o caminho da luta? Ou viverá seus dias imersa nas profundezas da miséria e do abandono?
Aproveite o quanto puder.
Essa Belém da memória pode e deve ser eterna.

2 comentários:

Nina disse...

Parabéns, Aldenor, acertaste em cheio! É como visitar uma galeria de arte sem sair de casa (e da frente do computador). Ver essas imagens me deu uma sensação de saudade...não sei porque.

Itajaí de Albuquerque disse...

Excelente! Eu não conhecia essas vistas. Mindlin foi um exemplo e sua obra de reunir uma brasiliana para acesso público também não é menor.