domingo, 16 de março de 2008

Não adianta tapar o nariz

Poderia ser hilário, mas foi mesmo patético, uma cena chocante em todos os sentidos. Juíza e promotora pública, além de toda a comitiva que visitava as verdadeiras masmorras localizadas nas Seccionais e Delegacias de Polícia da Grande Belém, tapando o nariz, à beira da náusea, diante do odor insuportável que exalava das celas onde dezenas de detentos se amontoam, expostos à imundice e à doença. Entraram, por assim dizer, numa espécie de último círculo do inferno.
Diante do cenário caótico e que já começa a fermentar seguidas tentativas de fugas e rebeliões, o poder público pode adotar dois caminhos: fingir que está fazendo alguma coisa apenas para que tudo permaneça como está, ou, de uma vez por todas, assumir integralmente suas responsabilidades com a guarda e com o tratamento humano dos detentos. Aliás, como manda a lei.
Para tanto, exige-se muito mais que palavras e proclamações de fé nos direitos humanos. É necessário destinar recursos em quantidade suficiente e desenhar uma nova política para esse setor tão sensível e explosivo. Desmontar as peças da engrenagem de triturar seres humanos, combatendo de forma implacável as denúncias de maus-tratos e torturas, reiteradamente denunciadas pelos familiares dos presos, deveria ser um imperativo de consciência, ainda mais para um governo que tenta vender a imagem de progressista. Imagem que, a cada dia, vai se esmaecendo e caindo no vazio de uma simples e frágil peça de propaganda.

5 comentários:

Anônimo disse...

que excelente comentário Aldenor, exato, justo e equilibrado, e sem qualquer ironia ou ressentimento. Quero lhe parabenizar pela isenção e acuidade ao comentar o assunto, inclusive com suas repercussões legais e políticas. Já era um de seus admiradores, agora passo a ser um entusiasta.
abs
jc

Anônimo disse...

Podem malhar mas, acho que bandido tem que sentir na "pele" que prisão não é a sala da sua casa. É bom ele sentir fedor para que, ao sair, não volte a delinquir. Seria bom se alem de fedorenta a prisão fosse quente e suja.
É o que penso.
Bandido bom é bandido na cadeia... mesmo que fedorenta.

Anônimo disse...

volto para comentar o absurdo do comentário acima. Se a cadeia está cheia de bandido; a bem dizer, "saindo pelo ladrão", porque o crime não diminui, dá uma trégua, ou arrefece?
Para homenagear o dono do blog, é porque o delito se tornou produto intrínseco da sociedade capitalista, semo crime ela não se desenvolve, há um perfeito imbricamento do dinheiro sujo, lavado, e o dinheiro limpo, ganho com suor - o que confirma o dizer de Marx que a sociedade burguesa é amoral. Pos isso, das 00:52, olhe para voce e veja se és assim tão santo...
abs jr
jc

Aldenor Jr disse...

Anônimo das 00:52,

A civilização há muito abandonou os castigos cruéis e as penas degradantes.
Lamento que você, aparentemente uma pessoa esclarecida, revele tanta ignorância. Levando ao extremo seu raciocínio, estaremos de volta à Lei de Talião. Um retrocesso indefensável.
Os presos nas delegacias estão sob a guarda do Estado, que não pode agir fora da lei.
Reflita melhor sobre suas posições. Nelas, infelizmente, repousa o ovo da serpente. Foi assim que, no século passado, foram gestadas ideologias que justificaram o massacre o extermínio de povos inteiros. A truculência e a insensibilidade social jamais serão boas-companhias.

Anônimo disse...

O que me admira neste processo todo é o espanto da promotora e da juíza ao constatarem a situação das cadeias. Se vocês observarem as fotos publicas nos jornais, apenas as duas tinham as mãos tapando o nariz, nenhum jornalista, ou técnicos que acompanharam a vistoria estavam tão "abalados". Essa a veemente demonstração de que a justiça caminha sempre na contramão da realidade. Se as duas representantes do Poder Judiciário fiscalizassem eficazmente o sistema carcerário do Estado, talvez não estivesse este caos.
Mas, sempre é hora de mudar. Quem sabe a Rosileide Filomeno e Elaine Castelo Branco não mudem de postura profissional a partir daquela visita da qual saíram tão ofendidas física e moralmente.

Um abraço Júnior. seu blog está cada dia melhor, sempre acompanho.

Ana Carina, estudante de História